Rio Barcelos

Rio Barcelos

segunda-feira, 14 de maio de 2012


Não é sempre, mas às vezes levo sustos enormes. É como um rio que a gente navega, navega, mergulha nele, afoga-se nele, e nem se dá conta de que o rio é o curso de sua vida. Tenho essa impressão quando concluo algum texto, às vezes. O engraçado é que há um disfarce medonho, um terreno e tempo distantes, personagens nunca antes vistas ou sabidas, como se tudo isso pertencesse ao alheio, ao que não nos diz respeito. E o susto que tomo é este: saber que nada do que escrevo é alheio, o susto é saber que tudo o que escrevo diz respeito a mim, mesmo que distante, estranho, escuro, inconcebível, metamorfoseado em dragão ou em sereia, eu sou a fonte, eu sou o rio que deságua, para o abismo, para o fim, para o nada.

Capítulo de algo maior, ou menor. Sei lá.

***
A luz do sol apareceu vermelha, rasgando o céu, lá por trás da península de Maraú. A ilha da Gerumana era uma sombra se elevando sobre o mar do canal. O ar ainda frio. Logo o sol desceria queimando tudo.
Teófilo ouviu um estrondo, vindo lá das bandas da Ponta de Caieira. Imaginou que fosse Raimundo Reis matando os peixes.
“Um desperdício. Uma maldade com a natureza. O desgraçado ainda vai se dar mal. O certo é pescar de linha, de rede de arrasto; o certo é usar a malha certa na rede, para não pegar os peixes pequeninos, que não servem para comer. É certo usar bomba? Milhares de ovas perdidas. O homem é burro. Raimundo Reis também é meu amigo mas é burro. Que mal fiz a Deus para ter um amigo burro?
Acendeu outro cigarro e tomou rumo contrário ao som da explosão. Não queria ouvir os estrondos. Foi para longe, para um lugar onde pudesse apoitar sua canoa, preparar sua isca e esperar que o peixe graúdo viesse morder o seu anzol.
“É diferente. É muito diferente. Pesca-se o necessário; não há matança desordenada. Diabo! O fim não justifica o meio.”
Imaginou Raimundo Reis catando as tainhas da superfície. O samburá do infeliz devia estar entornando peixe, mas não lhe era suficiente, o pescador sabia que lá no fundo estavam as tainhas gordas, por isso mergulharia e iria buscá-las.
O sol se escondeu atrás de grossas nuvens, lá onde a península descamba para o oceano. Nuvens negras, volumosas. O mar do Canal escureceu e a paisagem mudou. Desenhou-se um quadro de chuva. Teófilo percebeu que tudo ficou quieto. Julgou que fosse a explosão da bomba a causa de tanto silêncio. Deve ter assustado as garças e os savacus. Um bando de periquitos e todo o estardalhaço que fizeram, quando cruzaram o Canal, se ouvia agora longe, quase como uma ilusão.
Teófilo apurou o ouvido, na tentativa de ouvir a voz de algum outro pescador. Por aquelas bandas era comum um pedaço de voz vir bater nos ouvidos. O vento trazia e levava, num bater de asas.
“O tempo virou! Nenhum som. Nada. Ora, o mar está para peixe.”
Lançou a linha ao mar e esperou.
“Que mais se pode fazer nessa vida?”
***

Fragmento de "uma coisa" que estou escrevendo; tomara que vingue.
***

Eugênia, depois que percebeu que o marido havia saído, levantou-se, pois não estava com sono. Pegou o candeeiro pendurado em uma viga da casa e o colocou sobre a mesa, assim poderia ler o Almanaque Capivarol, exemplar que lhe dera seu João Celi, quando ela fora à vila comprar remédio para cólica. Era a única coisa que tinha para ler naquela casa. Havia uns casos e piadas engraçados na revista. Já os lera todos, mesmo assim sentia certo prazer em voltar à leitura, como se fosse a primeira vez. Sabia tudo de cor, mas havia um engenho na leitora que fazia com que a cada nova leitura brotasse da história algo novo. Ou como se a pessoa que estava lendo já fosse outra. Assim Eugênia se pôs a folhear a revistinha. E parou num caso conhecido. Ao terminar a leitura, estava emocionada, como se todos os problemas do seu mundo real tivessem deixado de existir. Naquele momento, só ela e a leitura. Desviou os olhos do almanaque e olhou a parede à sua frente. Agora uma outra história, também já vivida e repetida por Eugênia, saltou dos seus olhos e foi se desenrolar na parede. Ela era a espectadora. A luz amarela e trêmula do candeeiro projetando e dando movimento às imagens na parede. Era uma história. E era uma história triste. A história de um amor proibido. O filme parou de repente. Eugênia apagou o candeeiro com um sopro forte e as imagens evadiram-se. O cenário do mundo escureceu. Bobinha! A história não para nunca. Ela é filha do tempo. Ela continua, mesmo no silêncio, mesmo na escuridão...
***

domingo, 1 de abril de 2012

Anjinho


            A igreja agora é bonita. Limpa, por fora. Dá gosto olhá-la de longe, destacando-se na Praça da Matriz. De perto, então, apura-se o olfato e ainda se sente o cheiro da tinta fresca entrando pelas narinas e pelos olhos, enebriando, deixando o povo tonto. Toda renovada, ela que é tão antiga. Suas torres, braços incansáveis, erguem-se aos céus, clamando a Deus os inúmeros pedidos. Maria Dasdolores de Vulpian, rogou a Nossa Senhora que curasse seu filho Anjinho do puxamento que o maltratava desde que nasceu. Até mesmo ela, que nunca adentrara aquele sagrado santuário, recebeu uma dose do santo remédio, o restante da cura viria por merecimento. O menino, rosado nas aparências, pareceu-lhe sarado. Acendeu duas velas pequenas e ficaram acertadas, ela e a santa. O asmático, alheio ao acerto de comadres, continuou fazendo suas necessidades no terreno da igreja, lá nos fundos, ao lado da sacristia, onde dormia, num esquife, o Nosso Senhor Morto. Arriava o calção, agachava-se e deixava no terreno a sua obra sagrada. E isso era sempre de tardinha, antes de seu João Grande se dirigir à usina e botar o gerador para funcionar. A figura enorme do homem, figura que faz jus à alcunha, aterrorizava o menino. Por isso, sempre que Anjinho suspeitava a aparição de seu João Grande, arrancava folhinha de mato e limpava-se às carreiras. E às carreiras saía do beco do motor, gritando:
            - A vara! A vara!
            Nesse momento, ele já não tinha mais medo de seu João Grande. Agora, o que sentia, era emoção. No canto da sala de sua casa, lá estava a vara comprida e flexível de araticum. Pegava-a com mãos nervosas e saía correndo. Postava-se no oitão da igreja e, com a vara à frente, aguardava. Logo chegavam os outros meninos, uns com varas, outros com pedras.
            Vulpian, que então fumava encostado à porta de seu bar, disse:
            - Olhe, Dasdolores, lá estão os malvados.
            Mal Vulpian acabou de falar e de dentro do bar, que também era sua casa, saiu seu filho Anjinho com uma vara comprida.
            - Epa! Epa! Mocinho! Onde pensa que vai?
            - O menino parou, manso. A feição, de anjo remelento. A respiração e os olhos, fiapos de nuvem. Os cabelos, louros, escorridos. As faces, sujas. E as mãos, determinadas, segurando a vara. Continuou parado. Não era o menino que estava parado. Tudo estava parado fazia tempo naquele lugar. Desde a fundação da Aldeia, que chamaram de Aldeia da Purificação, com a chegada dos jesuítas da Companhia de Jesus, no ano de 1654, com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os santos encarnados vieram, plantaram coisas e se foram. Deixaram em seu lugar imagens de barro, sacralíssimas. Deixaram a construção imponente, plantada no meio da Praça da Matriz. Em redor, casinhas penitentes, ajoelhadas, diante da grande Casa.
            - Oxe! O que foi isso?
            Uma imagem nos passou de repente diante dos olhos. Chegou-nos como se fosse a lembrança adormecida e fresca do furúnculo que o menino acabou de espremer.
            - Pare de mexer no furunco, menino; vai magoar a ferida, gritou-lhe o pai. Olhe só para isso, Dasdolores, o carnegão de fora.
            Ora! Mas o menino nem percebeu que mexia na ferida. Olhou o dedo sujo de sangue pustulento e de outras imundícies e rápido limpou a sujeira no calção. Saiu correndo, gritando:
            - A vara! A vara!
            - Diabo de menino! resmungou o pai.
            - E não pode se cansar, Vulpian, disse a mãe. Mas é menino, e menino precisa de brincar. O coitadinho... Deus tenha piedade... Meu anjinho...
            Juntou-se a outros meninos, que aguardavam seu João Grande ligar o motor.  Essa expectativa só aumentava a emoção. As mãos envolviam as varas de araticum com força. As pedras sonhavam um destino certeiro. Jajá de tio Wilson disse:
            - Vou acertar o Diabo em cheio. Vamos seu João, liga logo esse bicho, gritava de longe da usina.
            Até Zezinho de finada Linda de Epitácio, que só andava doente e nem aguentava dar uma carreira, nessa hora arrotava:
            - Vou acertar dois de vez.
            Só Anjinho não dizia nada. Mas todos podiam ver nos seus olhos a bravura reluzir. O motivo vinha de longa data, funcionava como rito de passagem dos meninos, consagração a Deus e renúncia ao... Deus me livre, pois não digo esse nome. É que também eu fui menino de lá. Os pais nem reclamavam.
            - É bom que se mate esses bichos; filhos do Diabo – os homens crescidos tinham coragem de dizer.
            Não demorou muito e logo se ouviu o ronco da máquina. As luzes dos postes de madeira se acenderam. Mas ninguém viu a luz, nem ouviu a Ave Maria que começou a tocar no rádio, no bar de Olica. Nenhum dos meninos fez o sinal da cruz. Anjinho, preparado, disse:
            - As varas! Aí vêm eles!
            E logo a legião de diabinhos se atirou rua afora e ganhou o beco da igreja.  Formavam uma nuvem preta, assombrosa, davam pequenos gritinhos e batiam as asas desordenadas. Chegaram rápidos, num sobrevoo rente à cabeça dos meninos, e logo sumiram. As varas e pedras também mexeram-se rápidas.  Umas cortaram o ar ligeiro e nada encontraram; já outras, certeiras, atingiram o alvo em cheio.
            Cinco morcegos no chão. Uns parados; outros ainda se debatendo, emitindo  gritinhos estridentes.
            Anjinho chegou perto de um e disse:
            - Cara de rato. Rato, vira morcego! Rato vira morcego e foge tritritri avoando. Jajá, morcego se desvira em rato?
            Jajá, que tinha resposta para tudo, respondeu, enraivecido:
            - Ele vai virar é diabo morto!
            Levantou o pé e desceu-o com toda a força sobre a cabeça do bichinho. Depois ficou girando o pé, esfregando a cara do coitado no barro da rua.
            - É assim que eu me vingo, filho de Satanás!
            Anjinho achou o que Jajá fez muito errado. Deixou o morcego imprestável . Pois morcego morto não serve para nada. Por isso ele olhou rápido para os outros que estavam espalhados pelo chão. Viu um se arrastando, tentando fugir. Rápido, gritou:
            - Não mate, Jajá! Esse é meu.
            - Oxe, e vou lá matar! Já tive o meu; quero é ver se morcego se desvira em rato. É todo seu. Pronto, já vi que não desvira. Pode matar.
            - Vou matar depressa não, respondeu Anjinho, olhos fixos no bicho.
            - Ora! E vai matar como?
            O menino não respondeu. Mas tudo já estava preparado: o tronco da bananeira no fundo do quintal de sua casa, as brochas que arrancou de uma tábua velha, e agora o morcego, que era o que estava faltando.
            Jajá, não tendo mais o que fazer, provocou:
            - Se desvira em rato nada!
            Então Anjinho, que saiu com essa novidade, explicou:
            - Desvira, sim; ele, deve, estar, é, com, vergonha. Fiiuuu. Ou, então, ainda, é, novo; tem que, ser, morcego, velho... Fiiiuuu. Largata, não, vira, bor-bor-bor-bo-leta? E...
            - Mas borboleta não desvira em lagarta, desvira, miadinho de gato? E não é largata, é “lagarta”.
            E Jajá deu uma carreira rua abaixo, à procura de praticar maldade com outros bichos indefesos.
            Anjinho pegou o morcego, que ainda se debatia, e levou-o para sua casa.
            Entrou com o bicho meio escondido, para que seus pais não vissem. Sabia que iriam reclamar. Pais, quando grandes, reclamam de tudo. O menininho nem pode levar um bicho para casa. Tem que ser assim, escondido. Será que pais adultos pensam que  meninos são bestas? Tadinhos...
            O menino entrou foi na arte natural da sonsidão. No fundo do quintal colocou o bicho sobre uma folha grande de cacaueiro. Olhou o tronco da bananeira. Lisinho. Pegou as brochas, que deixara escondidas no porão de um de seus barquinhos de cortiça, e pronto.
            Foi difícil segurar a asa direita e a brocha ao mesmo tempo em que segurava a asa esquerda. Mas conseguiu enfiar a primeira brocha. A segunda foi mais fácil.
            - Pronto. Aí está você, pássaro do diabo, Anjinho praguejou.
            Ficou parado em frente ao morcego. De asas abertas, pregado no tronco da bananeira, o bichinho imóvel, a cabeça ainda firme, querendo reagir, como se pretendesse soltar-se do resto do corpo. Deu um gritinho de sofrimento. O menino se arrepiou. É que a escuridão descera, e o menino, tão entretido com o morcego, nem percebera. Mas a escuridão agora vem lhe dizer que mete medo. Que o quintal, ali pelos cantos, sob as folhas, e logo mais por todos os escuros, o ambiente agora é dela. Que ele deve entrar em casa, sair do quintal correndo, antes que ela o prenda nas suas asas negras.
            O menino olhou para trás, rápido, como se tivesse levado uma cutucada de alguém, ou de alguma coisa. Mas nada viu, ou viu apenas o grande vulto que crescia por todos os cantos, e em redor de si.
            Medroso, deu uma carreira e entrou em casa.
            Maria Dasdolores e Vulpian mais outros filhos, que não interessa nominar nem quantificar,  já estavam à mesa. Anjinho entrou correndo e foi se sentando no seu tamborete. A mãe foi até o fogão de lenha, pegou a chaleira que estava sobre a trempe e derramou o café na caneca do menino. Deu-lhe um bolachão e ele começou a comer. Depois que Anjinho terminou de tomar o café, ficou na mesa ouvindo a conversa dos pais. Mas não acompanhava nada do que eles diziam. Apenas algumas palavras febris lhe chegavam desmaiadas.
            “Puxamento. Coitadinho. Na venda de seu... Piorando. Xarope de... Caro. Come, meu filho, disse a mãe, pasando a mão na cabeça loura do filho. Vai ficar bom, disse o pai, agarrando-se no invisível.”
O pensamento de Anjinho estava mais voltado para o morcego pregado na bananeira. Pensou que talvez ele já tivesse morrido. Ou se desvirado em rato. Concluiu que, se ele tivesse se desvirado, já não estava mais lá. Se ao menos ele pudesse vê-lo. Mas o quintal tão escuro! Espiou pela janela, mas não viu nada. Até colocou o fifó na direção da touceira de bananeiras, viu um vulto atravessar o clarão do fifó e se embrenhar por trás das folhas, fechou a janela rápido e foi dormir.
            Logo toda a casa entraria em sono profundo. O dia começava bem cedinho, com o céu ainda escuro, mas enfeitado de estrelas. A mãe cuidava de tudo. Acendia o fogão para fazer o café. Acordava os meninos para irem à escola. Depois que os despachava, intercalava os afazeres domésticos com ajudar o marido no bar. Os meninos chegavam da escola, almoçavam e iam brincar, ou então tomavam banho no rio, ou judiavam os catendes, ou matavam murunhanha, ou não faziam nada, apenas paravam alerdados, espiando o tempo passar se arrastando, na rua. Os dias eram longos.
            A mãe acendeu a lamparina no quarto dos meninos. Deixou a chama bem baixinha, para economizar gás. Rezou o Pai Nosso com eles, deu um beijo em cada um e saiu.
            Logo todos dormiam. Menos Anjinho, que não conseguia desgrudar o pensamento do morcego pregado no tronco da bananeira. Os irmãos todos enrolados em cobertores franciscanos grossos e macios. O silêncio doía nos ouvidos. Um som ensurdecedor que vinha não se sabe de onde. Se ao menos ele pudesse dormir logo. Mas não, tem de ficar pensando no bicho pregado na cruz. Bicho pregado na cruz? Nessa hora o menino avistou o Nosso Senhor pregado na cruz. Ele bem à sua frente, na parede do quarto. A luz da lamparina sem alumiar bem. Luz confusa. Luz que mistura o claro com o escuro, numa dança enebriante. As horas entontecidas, deixando a noção do tempo lassa. É de deixar a vista maluca. Umas visões. O Nosso Senhor pregado na cruz  se mexendo. Talvez ele ainda esteja vivo, e sofrendo. Isso é maldade. O menino já arrependido, pede perdão a Nosso Senhor, pois não devia ter feito aquela ruindade.  Que animal é mamífero e voa? Ouve a professora perguntar, na escola. Ninguém soube responder. Então ela disse que galinha era animal ovíparo; e o cabrito, herbívoro. E o morcego? O morcego é o quê? ela perguntou. Anjinho se adiantou e respondeu:
            - Sanguífero, ele respondeu. Sanguífero! Sanguífero! ele grita bem alto agora, mas o som morre-lhe no peito asmático.
             A professora não achou graça. Disse que a resposta estava errada. Botou o menino de castigo. Agora ele já sabe que morcego é mamífero, e voa. Mas que castigo! Que mal ele fez para ficar pregado. Ele tem a cabeça pendida para o lado. Ele já deve estar mesmo morto. Mas se está se mexendo? Morto é morto. Morto não é vivo. Mesmo assim o que é morto dá medo. Ele é tão magro. É de hoje que Ele morreu... Esse era homem e virou anjo. E o anjo se desvirou em homem no terceiro dia. E o outro, vai se desvirar em quê? Quando?
            Veio a noite alta e o menino lá, acordado. Até fez força para dormir. Mas visões assustadoras afugentaram-lhe o sono. Começou a sentir medo. Ora, mas medo de quê? Só por que matou um bichinho maldito? Estaria ele com medo de ser castigado por esse Deus pregado na cruz? Ele nem está olhando. Mas o menino de vez em quando levanta um pouco a beira do cobertor e gruda os olhos no Jesus crucificado. Ele tem uma luz em seu redor. É a luz da lamparina que ilumina mal o quarto. Antes estivesse tudo escuro, assim não viria o olho de Deus, que tudo vê, mesmo sem estar olhando. Ou seria coisa da cabeça da criança? Crianças têm esses medos aprendidos, que apreendem-nas, prendem-nas na pior prisão, aquela que é construída dentro de cada um. Para onde quer que se vá, a prisão interior o acompanha, não há liberdade do lado de fora. Meus Deus, não há liberdade!
Disseram-lhe que Deus castiga menino mau. E ele agora é um menino muito mau. Quem mandou matar o morcego? E Jajá? Estaria ele acordado nesse momento, com medo de ser castigado por Deus? Ou será que ele dorme, sem culpa, sem nada? Jajá ao menos é corajo e não pensa essas coisas. Mas Anjinho, não. Anjinho nem deve ter tanto medo. O que ele tem mais nesse momento é culpa, remorso por ter matado o morceguinho, que também é uma criatura de Deus. Anjinho uma vez disse que o Diabo, até o Diabo, é uma criatura filho de Deus. Que tudo que existe no mundo é criação de Deus. Mas nunca soube dizer a ninguém quem criou Deus. Na aula de catecismo, o padre perguntava:
            - Quem é Deus?
            E Anjinho, mais os outros meninos, respondia:
            - Deus é o criador de todas as coisas.
            - De que é feito Deus?
            - Deus é feito do nada.
            Então pronto. Tudo estava explicado. Mas um dia Anjinho, relutante, perguntou ao padre se Deus era o pai do Diabo. O santo homem quase teve um troço. Arrancou o menino da cadeira puxando-lhe as orelhas, deu-lhe doze bolos e o colocou de castigo, de braços abertos por meia hora no pátio da escola, para que todos que passassem vissem o grande maldito que é esse menino. Desgraçado! Maldito! Não dá raiva mesmo? Ele ficou lá, meia hora e mais um pouquinho, feito um Cristo chorão. Bem feito!
            “Morre, desgraçado, morre! Pássaro negro, filho das trevas. E cravou-lhe mais outra brocha na asa esquerda.”
            - Engole o choro! Engole o choro! Disse a professora – ou terá sido o padre? -,   apontando-lhe o dedo na cara.
            Um pecador o Anjinho, um pecador. Não lembra o que ele fez com o morcego? Deixou-o crucificado no tronco da bananeira. Até parecia que tinha raiva do mundo. O que os outros meninos não entendiam era o que Anjinho dizia, rangendo os dentes, quando fazia uma maldade:
            - É assim que me vingo, filho do Cão!
            E foi pensando essas coisas que Anjinho, num momento de descuido, nem sentiu a noite soprar-lhe nas vistas e nas narinas um ventinho de sono.
            - Fiiiuuu! expirou profundo. E fechou os olhos.
A criança continuará sonhando mistérios...

sábado, 24 de março de 2012

Lindóia à janela




A tarde foi caindo devagar em Aldeia da Purificação. Os cigarrões no fundo do quintal silenciaram de vez. Até parecia que tinham combinado a hora de parar. O escuro veio escorrendo do céu e logo foi se espalhando no ar, penetrando nos recantos. Ouviu-se o motor da usina. A luz amarela e fraca dos postes de madeira se acendeu.

            Lindóia, triste, não sentiu vontade de sair. Também, ir para aonde? Da janela de sua casa, ela olhou a rua. Do outro lado, na praça, o bar de Manuel de Olindina aberto. Como fazia todos os dias, sempre no mesmo horário, ele punha a radiola para tocar um de seus velhos discos. E ela era obrigada a ouvir aquilo. O bar vazio. Mais logo é que chegavam os que bebiam pinga. A música avisava-os de que Manuel de Olindina já tomara seu café e que agora o bar estava aberto. Eram os mesmo de sempre. Um vinha gastar o pouco que ganhara com a venda do peixe; outro, o que conseguira com o serviço de pegar água na fonte. Seu João Celi não bebia, não fumava e nem se parecia com os poucos que se consumiam no bar. O que o atraía ali naquele bar era Rita, a mulher de Manuel de Olindina. Puxava conversa com ela, cheio de bons princípios, pois chegava com uma conversa de moral, de respeito aos santos, do que se devia e do que não se devia fazer. E ela acreditava, ou fingia acreditar que ele era um homem bom.
            - A senhora é uma mulher boa, dona Rita. – ele dizia.
            Ficava falando essas coisas agradáveis. E ela o colocava como exemplo de bom marido, sim, pois o santinho era casado.
− Santinho?
Isso mesmo. Fingia tão bem que até ele mesmo acreditava que era verdade as coisas que pregava. Mas, ao chegar em casa, entocando-se no banheiro, ou mesmo na rua, em um lugar escondido qualquer, aliviava-se pensando nela.
− Ora, mas isso não é errado.
É verdade, isso não é errado. Todo mundo, de uma forma ou de outra, acaba fazendo isso. Essa é a história que ninguém conta. O que se contava dela, da mulher de Olindina, era outra coisa. Que ela era boa, isso ninguém contestava. Seu João Celi que o dissesse.
            - Boa. Boa demais essa mulher – ele dizia com os olhos lambidos.
            O que se propagava era que seu João Celi tivera um caso com ela. Mas o caso só caiu na boca do povo depois que ele foi morar na cidade dos pés juntos. Foi Sebastião de Caboquinha quem espalhou o fato.
− Como ele soube isso? – pergunta-me você.
 Quem sabe! Sebastião de Caboquinha, desentendendo-se com Manuel de Olindina porque este não quis lhe vender cachaça fiado, fez cara de ameaça e, vingativo, espalhou:
            - Seu João Celi comeu Rita de Manuel de Olindina.
            “Pronto que a desgraça está feita.” – pensa você.
Que nada! Olindina era homem de sangue fraco. Nem espumar, espumou. Quis racionalizar um caso que era mais para porrada, para peixeirada. Nem foi capaz de atocaiar Sebastião de Caboquinha em qualquer esquina.
− Por quê?
Porque era um frouxo. Sabe que providência o corno tomou? Prometa que não vai rir.
 − Vou rir nada!
            − Vou levar o caso para a justiça! − o abestalhado ameaçou Sebastião.
            − Ha, ha, ha, ha, ha!
            Você disse que não ia rir. Mas não foi só você quem se escangalhou de rir assim. Sebastião riu assim. Todos rimos assim. Até mesmo Lindóia, que tinha o ar triste naquela noite, ali, sozinha, olhando o bar de Olindina, até ela começou a rir gostoso.
            “Rita dando para o defunto... Rita, mulher fogosa...  Ai, ai... E seu João Celi? Como é que vão prender ele, se ele está morto? Hum, esse Manuel de Olindina é mesmo um idiota...” – ela ficou pensando.
            - Está rindo de que, Lindóia? – perguntou Manuele, que tinha acabado de chegar de Maraú naquele instante, na lancha toque-toque de Tuninho.
            - Oi, Manu. Veio ver sua vó Lalá, foi?
            - Vim ver ela, sim; e você, tá boa? Ah, deve estar, tá rindo.
            - Tô boa, sim; não estou rindo de nada não; estava só me lembrando de um caso.
            - Ah, bom. Então já vou, ufa, essa ladeira do porto mata qualquer cristão. Até logo, Linda.
            - Até, Manu.   
            Manuele desceu a rua deserta. Lindóia voltou a seus pensamentos, e de novo começou a rir. E nem foi nada, só a lembrança de um caso que, por assim dizer, estava morto. Mas, bastou lembrar, reviver a história, para que seu João Celi, que estava morto, de um salto começasse a reescrever sua história de amor com Rita. A história, assim, não morre, continua pulsando, e continuará enquanto houver quem a conte e reconte. Mesmo com aparência de morta, ela sempre será viva na memória do povo.
            - Esse seu João Celi, viu... – Lindóia pensou alto, se rindo.

Moça à janela. Imagem de Claudio Gonçalves - www.cpousada.com.br

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A propósito de uma história



Uma história se passou na minha infância e até hoje a trago como verossímil na memória. É a história do pescador de almas. Poderia não dizer assim, já, de cara, de que se trata, deveria esconder as unhas, os dentes, a malícia do bicho, até que... vamos à história.
Eu era menino e brincava na grama, lembro-me bem a cor e o cheiro desse dia. Talvez tivesse cinco ou seis anos. Não. É certo, contava nove. A certeza vem de uma bermuda azul, presente de meu pai. Não lembra que fazia anos e que eram nove? Não lembra o dia verde e o cheiro de chuva? Que um pescador passou com remo e samburá nas costas? Outro pescador, e outro, e... passaram seis, lembra? Lembra que um deles era seu Vivaldo? Não lembra? Aquele alto de pele queimada de sol, chapéu de abas largas; o que passou primeiro, com remo e samburá nas costas. Lembra? Ah, bom. Pois não se esqueça: este homem é a réplica do Diabo. Ah, não sabia  que o Diabo tem réplicas? Pois fique! O Diabo tem réplicas e as têm muitas. Um mascarado.
Os pescadores passaram. Uma senhora branca, de cabelos brancos, nariz firme e testa pequena, apareceu na janela de minha casa. Chamou-me.
— Vem cá, meu filho!
Eu, como queria ficar brincando, fiz corpo mole.
— Ah, mãe...
E ela, firme como sempre fora, agora ordenava, porém tinha na voz certo melaço.
— Vamos, vem que não vais te arrepender.
— O que é? É doce, mãe?
Fui correndo. Chegando em casa, na sala, vi meu pai de pé, a mão direita nas costas, sorria.
— Vamos, vem cá, menino.
Aproximei-me e ele, rápido, estendeu-me a mão que estava escondida e apresentou-me um embrulho. Eu não soube que fazer. Tinha certo acanhamento em presença de meu pai. Estanquei abobalhado à sua frente.
— Como é? Não queres o presente?
Temeroso — temia por respeito — recebi-o de sua mão.
— Como se diz? — perguntou-me minha mãe.
— Obrigado.
— Obrigado, meu pai — completou ela.
— Obrigado, meu pai — repeti.
— Dá um abraço em papai — mandou minha mãe.
Abracei meu pai, abri o embrulho e vi, veja você também, não é bonita minha bermuda azul?
Anos depois soube por minha mãe que a bermuda tinha sido um presente pela passagem de meu aniversário.
— Fazia quantos anos, minha mãe?
Respondeu-me nove. Ah, mas isso já faz tanto tempo, apenas conto para dar-te prova de minha idade na ocasião do Diabo. Vamos a ele.
 Aproveitemos que ele pesca para construir-lhe uma casa. É preciso ter casa. Não se vexe, esta é simples, e, com sua ajuda... —, obedece à arquitetura local: quatro toras fincadas, uma em cada ponta do quadrado, varas dispostas na vertical e horizontal, atadas com cipó, buracos tapados com barro batido, varas estendidas sobre a construção, piaçaba estendida sobre as varas e pronto, eis aí a casa de seu Vivaldo. Limpemos pés e mãos, todo o corpo, aliás, e entremos de vez.
Oxente, entramos na casa errada! Mas a história é assim mesmo: constrói-se em cima do tempo e do espaço. Nem sempre certo é o tempo, nem sempre bem demarcado é o espaço. Por isso entramos na casa do tempo errada. Ou, quem sabe o erro é um acerto?
A casa fica na Rua do Campo, pertence à família dos Policarpo, o tempo é que é um tanto incerto, 1965, 1970... 1973! A data certa vem da derrubada do casarão; aquele em ruína, lá perto da Praça da Matriz. Lembra? Foi em 1973. Houve coincidência de nossa entrada na casa com o fato.
Pois nessa casa mora uma moça. Ei-la sentada a coser um vestidinho. Vai casar-se, o seu nome é Sônia, 20 anos, boa moça, prendada... vai casar-se com Vivaldo, o pescador. O acerto — eis o erro — do casório já foi comunicado a todos. E todos estamos felizes pela união de Sônia e Vivaldo.
Epa! Essa última frase quem disse foi o padre.
Casados, vão morar na Praça da Matriz. A casa parece a Sônia um mondrongo, mas, como o olho se acostuma rápido com o que vê, com o tempo vai gostando.
— É a casa do meu amado! É a casa nossa! A casa dos meus sonhos! Ah, como sou feliz!
É, Sônia amava mesmo o marido. Mas vamos aos fatos.
Passaram-se cinco anos e nada de Sônia engravidar. Engravidar é preciso, viver não é preciso — paráfrase vagabunda! — Mas o que é a história se não se pare? Se não se pare, morre-se em si, morre-se a história. Sônia é o útero conceptível desta história. Cinco anos, cinco anos e nada. O jeito foi recorrer a um pai de santo. Ora, mas não foi por causa da infertilidade! Então não sabes que ela perdia o marido? Para a Clotilde, uma sirigaita, intrusa na história, simples ponta, sem crédito; então a deixemos aqui, morta e enterrada.
Havia o padre como conselheiro matrimonial. Mas não era isso o que Sônia queria. Queria era prender o marido às amarras de seu coração, um feitiço forte, que mandasse a outra para longe, que a deixasse na pele e no osso, que... enfim, que a matasse.
Vê como a história não conhece tempo? E não já enterramos a outra?... Continuemos.
O pai de santo conversou com o Coisa e, ambas as partes estando acordadas, fez-se o pacto. Daí a nove meses nasce a menina. É forte, é bonita, é morena; é a cara do pai.
— É uma menina mulher! Bonita como o diabo! Vai se chamar Janaína — diz, cheio de orgulho, Vivaldo.
Nascida a menina, o pai de santo visita Sônia e lembra-lhe do contrato, da cláusula.
— Ora, mas que cláusula, painho?
— A menina, Sônia, a menina é o preço. Depois pode ter outros filhos, mas esta... esta não lhe pertence, sabe de que falo... é o preço.
— Sacrificar a menina? — pergunte-me, leitor.
— Sacrificar a menina?
Isso mesmo. A menina nasceu de uma conjunção entre Sônia e o Diabo. As vias de transe, ou, se quiseres ser moderno, vias da transa, aconteceram em ritual satânico, onde a mulher, deitada e completamente nua, recebeu o falo espiritual. Ouviram-se os gritos do gozo. Deram-na por louca. O pai de santo e curandeiro a tratou com banhos de folhas e rezas. Dias depois estava boa e prenhe. Podia ter muitos filhos. O casamento estava a salvo. A história pode continuar.
Aqui bem cabe um fim, mas a história é fértil, continuemos.
Que a história também dá lá seus pulinhos, todo o mundo sabe, por isso, pulemos onze anos.
Eta pulo mal dado desgraçado! Não, tudo bem, caímos em tempo e lugar certos. Uma menina que pulava a cancela foi que... Vamos à história.
Que venha Janaína.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Olhar mortiço de sedução



Romildo passou e falou com Janaína, na praça. Ela derramou um olhar mortiço de sedução pra cima dele. O besta não percebeu. Com uma visgueira na mão, ele disse que ia pegar um guriantan que tinha visto no pé de capiá, no quintal de dona Carmelita.
—   Eu te dou ele de presente pra você, Janaína.
Ela, que já ia lá adiante, virou-se e foi esparramando pelo chão, até alcançar os olhos de Romildo, um olhar grudento. Tão grudento como aquela visgueira que ele tinha na mão. O corpo do moço buliu. O coração disparou. Ele deu uma carreira. No mato esqueceu o passarinho. Escondido numa touceira de bananeiras, invocou o feitiço da alma de Janaína. Arriou o calção, fechou os olhos e mandou sua alma lambuzar-se com a alma daquela diaba. Um fogo subiu-lhe por todo o corpo. Eram as formigas de fogo e as formigas caçarema atiçando fogo no corpo dele. Gozou, aliviou-se. Livrou-se das formigas e foi ver se ainda pegava o guriantan que cantava no pé de capiá, no fundo do quintal de dona Carmelita. Chamou-se de sortista, o bichinho ainda estava lá, e mais bonito, mais colorido, azulado nas costas, o peito amarelo, e trinava forte. Mansinho, pareceu-lhe. Subiu na cerca e trepou numa galha do pé de capiá, sem fazer barulho, sorrateiramente como ele sabia se mover no mato. Pensou em Janaína. Ela ia gostar do presente. Um presente de amor. E o guriantan ia cantar todo dia de manhã cedo e o canto dele ia entrar no ouvidinho dela, no pensamento, e ela ia pensar que era um sonho colorido. Sonhava com Romildo e arriava de novo aquele olhar meloso. Acordaria pensando nele e descobria que o amava. O guriantan, agora pulou para a outra galha. Romildo, sabe-se lá por que diabos, resolveu que ia pegar o pássaro de mão. Contaria a Janaína como foi e ela ia ficar garbosa do feito. Não era gabação não. Romildo tinha mesmo jeito para pegar passarinho. Tinha dias que ia pro mato e voltava com japiranga, sabiá, até sanhaço; os beija-flores chegavam mortos, de badogada; e os sanhaços, estes não sobreviviam em gaiola. Os nicos eram engraçados. Pegava-os todos, passarinhos e outros bichos, no manzuá. Os coitadinhos entravam pelo buraco e não encontravam a saída. Mais um pouco e Romildo botava a mão no guriantan. Bateu um vento. A árvore fez que ia cair. Romildo se segurou. A galha embalançou. O passarinho avoou. Pousou, na ponta de uma galhinha, fina, lá Romildo não ia. “Eu vou”, disse ele. O vento ficou por ali. As outras árvores, quietas ele as deixou. Rondava o pé de capiá. O guriantan abriu as asinhas eufóricas, afinou o bico e cantou forte. Romildo se encantou. Pensou em Janaína. O passarinho, ali, pertinho. Lançou a mão, o passarinho, rápido, avoou. Voou para longe no vazio, assoprado pelo vento que o levou. E Romildo, não achando nada no vazio, desequilibrou-se e de lá do alto seu corpo despencou. Ainda ouviu o badalar dos sinos da igreja de Nossa Senhora das Candeias chamando o povo para a procissão. Ainda ouviu, na queda, o farfalhar agoniado das folhas do pé de capiá. E o último som que ouviu foi o do próprio corpo caindo veloz, cravando-se nas estacas da cerca.
Na igreja, o sino badalava, e não havia cortejo nenhum para a alma de Romildo, que já ia longe, travada, para nunca mais...
No mato um bacurau piou...
***
Trecho de O Pescador de Almas
Foto de Roberto Harrop - Guriatã ou Gaturamo verdadeiro (Euphonia violacea) - retirada do Flickr

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Natureza


       Abriu os olhos com o cantar do galo num terreiro distante. O negrume da noite ainda se escondia sob as folhas das gameleiras e dos cacaueiros. No céu brilhava a estrela d’alva. Na rua um vozeirão de homem convocava para a pescaria.
—   Ei Lapinha, acorde, tá na hora.
—   Babo, ei, Babo, vambora, rapaz, tá na hora.
No mesmo horário vinha João do barco avisando quem fosse viajar para Camamu que estava na hora de acordar. A maioria já estava com o café tomado e com a bagage pronta. João do barco só chamava uma vez. Chamava e descia para o porto. Muitas vezes o rio estava seco e os viajantes tinham de andar até a boca do rio, na coroa, onde o barco estava ancorado. Se o rio estivesse um pouquinho mais cheio, mas não tão cheio que o barco pudesse entrar ou não suficientemente seco para que os passageiros pudessem seguir a pé, os viajantes tomavam uma canoa emprestada ou então pegavam carona com algum pescador que estivesse saindo e iam até o barco. As mulheres iam acocoradas no fundo da canoa. Os meninos já maiorzinhos equilibravam-se de pé. O remador ia atrás, na popa, também de pé. E fincava o remo na areia do fundo do rio e empurrava, a canoa avançava desequilibrando-se um pouquinho e as mulheres faziam ui, os meninos davam um risinho fazendo pouco do susto que as mulheres levavam. Os maruins atacavam a pele. Os sururus na lama do mangue estalavam. Os aratus e os caranguejos espiavam com seus olhos compridos. E o cheiro do mangue e do mar era tão forte! Era a natureza em todo a sua vitalidade. E o corpo do remador também era forte. E sua pele era da cor da lama do mangue. O remador era uma extensão da água do rio e da lama do mangue. A água do rio era salgada e inundava o ar com seu cheiro forte de maresia. Assim também era o homem, do seu corpo transpirava um suor salgado e o cheiro que saía junto era cheiro de mar, de sal, de lama. O homem fazia parte daquela natureza. E ambos, homem e natureza, conviviam harmonicamente, interpenetrando-se, confundindo-se, fundindo-se um no outro. O homem feito de mar e lama ia na popa, e do seu rosto negro espiavam dois olhos brancos... uma garça piou assustadiça e avoou no céu...
O homem feito de mar e lama apoitou a canoa do lado do barco. Os passageiros, os homens com jeito, as mulheres desajeitadas, transpuseram-se para a embarcação que os levaria a Camamu. O homem da canoa puxa a poita, dá um empurrão no bojo do barco e a canoa se afasta disparada. Já vai lá longe, beirando o mangue, confundindo-se, fundindo-se, sumindo-se... só se vê um céu azul emborcado no mar, e um manguezal verdejante a perder-se de vista...

* * *
João do barco gira a manivela do motor e o barco treme nervoso. O eco seco da máquina bate no mangue e o tá tá tá tá tá ressalta, ressoa, é o atabaque da mata, tá tá tá tá tá.
No espelho trepidante do mar avoa uma garça... lá no profundo das águas, perto do céu azul...

Trecho de O Pescador de Almas

Cântico de Verônica



Na porta da professora Izabel havia uma mesinha enfeitada do lado de fora. Por um momento a procissão parou. Adelina subiu em uma cadeira e, com o sudário com que Verônica enxugou o rosto de Cristo nas mãos, ela entoou um hino em latim.


“O vos omnes,

qui transitis per viam,

attendite et videte,

si est dolor sicut dolor meus”

Era o hino de Verônica. À medida que cantava, ora sungava o pano com as pontas dos dedos, devagar; e ora o abria totalmente, e todos podiam ver o rosto de Cristo estampado em vermelho. Seu Dudu batia a matraca, Adelina descia muito emocionada da cadeira e a procissão continuava.
Agora era a vez de Adelina subir na cadeira e cantar o hino de Verônica na porta de dona Anita. E as palavras lamentosas diziam:

“Ó vós todos
que passais pelo caminho,
 parai e vede
se há dor igual à minha dor.”

Trecho de O Pescador de Almas



Igreja



— Essa igreja, essa mesma, quando foi construída, isso lá pelos idos de mil seiscentos e tanto, foi construída com a frente voltada para o mar, mas, dias depois, o povo ficou abismado, a igreja estava com a frente voltada para o vilarejo. O povo respeitou a vontade da santa, deixou a igreja com a frente voltada para o vilarejo, essa mesma, lá pelos idos de mil seiscentos e tanto...

Trecho de O Pescador de Almas

Os passos do medo: uma herança cultural



— Bom Jesus dos Passos mete medo nas crianças com aqueles cabelos compridos e com aquele vestido lilás e com aquela posição acorcundada. Minha avó tinha medo, minha mãe tinha medo, eu tive medo, meu filho mais novo tem medo, acho até que minha bisavó e também a mãe dela, as duas tinham medo. É um medo antigo.

Trecho de O Pescador de Almas

domingo, 22 de janeiro de 2012

Caipora



Deram seis horas. Há pouco ainda se ouvia o canto altissonante dos cigarrões, mas o som da orquestra foi baixando, baixando, e logo o silêncio. A tarde caminhava ao encontro da noite. A luz esmaecida do dia estendia-se preguiçosa na praça e nas duas ruas de Aldeia da Purificação. Mas a escuridão já se prenunciava nos cantos. Abria-se a porta escura do quarto e logo ela ia escapando pelo corredor. Fechava-se a porta do quintal e logo um manto negro formava-se na cozinha. Os candeeiros estavam a postos pendurados nos portais, ou sobre cômodas e armários, ou na mão de alguém que o levará com cuidado, para não apagar. Todo o lugar é silêncio e sombra. 

Olhe lá para baixo, nessa rua, e veja alguém.
Está vendo? Não vê nada.
Rua comprida. Lá embaixo, quem tem imaginação, verá corpos escuros atravessando a rua, saindo do beco de seu Edson. Mas não são ninguém. São só confusão dos olhos. Esses vultos escuros.
É capaz de ouvir uns sons, uns bu, bu, bu, que não se sabe de onde vêm?
Esses sons vêm do fundo do quintal da casa de Linderzer Moreno, que já morreu faz tempo. Morreram todos. Enquanto ele toma café com a mulher e a filha, que é fraca do juízo, ouve-se no fundo do quintal os bu, bu, bu,  que são os pios do bacurau. Quando o agouro da ave se prolonga, o pai chega à janela e, batendo com o facão na pedra, diz:
- Toma fumo, caipora!
− A ave silencia, intimidada com a voz grossa de Linderzer Moreno, voz que fica ecoando, vagando perdida. Até hoje. A voz ameaçadora do homem assusta mais que os bu, bu, bu, daquela ave, que ele julga ser a caipora.
− Ora, paremos com esse discurso abestalhado de caipora, que aqui não há lugar para isso! – você me diz.
Tudo bem, mas não se esqueça: o povo acredita. E essa é uma realidade mais dura do que pedra. Não é coisa que se desfaça com um sopro.
Vamos, apure o ouvido; vê se ouve.
- Bu, bu, bu!
- Toma fumo, caipora!
Estas palavras repercutirão no juízo do povo, até o fim dos dias, de geração a geração. É uma praga.
- Bu, bu, bu!
- Toma fumo, caipora!


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A ÚLTIMA CEIA


Olho minha mulher sentada à mesa. É Natal. Ceamos. Posso olhá-la à vontade, até certo ponto. Cronometro na cabeça o limite do meu olhar. Às vezes, propositalmente, ultrapasso essa barreira cronológica, só para ouvir seus xingamentos, só para sentir no meu coração apaixonado todo o ódio que ela nutre por mim. Ela bate na mesa com sua mão firme, que antes, isto bem antes, me acarinhava. Agora bate. Mas não me fere. Cada vez que a provoco é para que saiamos da inércia em que nossa vida se enfiou. Grita comigo. Minha linda mulherzinha esbraveja comigo e um pouco da comida da sua boca salta e bate no meu rosto, na minha boca. Abaixo a cabeça.
– Homem submisso. Fracote. Molambo – sei que ela diz essas coisas de mim. Mas o que ela nem ninguém percebem é que, ao me abaixar, submisso, o meu amor se nutre um pouco da vida dela. A língua lenta lambe o lábio e recolhe o alimento triturado, amassado, salivado pela sua boca.
***
– Quer mais frango? – ela perguntou outro dia. Quando? Olhe como o tempo é engraçado! Faz tanto tempo. Já se passaram tantos Natais.
– Quer mais frango? Vamos, queira, vou servir.
– Posso pegar uma coxa? – pergunto.
– Animal. Animal. Não pode ver comida. Tudo para se amostrar. Quando vê gente fica assim – ela diz, nervosa, e, sem modos e sem paciência, enfia com raiva um garfo enorme na coxa do frango, na maior coxa, na mais gorda coxa, e atira-a dentro do meu prato, respingando óleo na minha roupa branca de festa, manchando-a. Não reclamo, não lhe digo nada.
– Porco. Animal. Não pode ver comida.
***
Sorrio. Não repare, ela sempre foi assim estourada. Veja como me ama: agora mesmo acabou de derramar no meu prato um pouco de carne que sobrou. Ninguém quis.
– Como “ninguém.” Então há mais alguém além de mim e ela?
Nossa! Como a mesa está cheia! Filhos, genros, noras. E netinhos tão lindos!
– Vem cá para o vô, vem.
– Vô não – responde o menino, emburrado – Vô não – e me chuta a canela ferida, e dói, e sinto que sangra, mas não digo nada, ninguém pode perceber, estragaria o momento, não seria higiênico.
O sangue, misturado ao pus da ferida, gruda na calça. É uma ferida antiga que não sara. Já pensou, mostrasse o magoado sangrando e aí mesmo é que ela, com razão, me chamaria de porco.
Sorrio.
– Ah, zanguei – faço uma cara engraçada, de condoído, para o meu netinho.
– Macaco feio – ele me chama.
Todos sorriem. Veja como foi engraçado e como todos se acabam no riso.
– Posso pegar outra coxa? – pergunto.
– Não! Já vou tirar a mesa – e rápida raspa a tigela, os pratos, toda a comida da mesa.
No corredorzinho, indo à cozinha, olho seu corpo de moça, cinturinha delgada, nádegas volumosas, os cabelos compridos... Aspiro o rastro de alfazema que ela deixa.
– Pare de farejar a comida – ela diz, virando-se para mim, gritando, quase soltando, saltando a dentadura da boca, quase caindo de tonta.
***
– Calma, minha mãe. Calma – ouço a voz dela, num outro canto – E o senhor, meu pai, pare de aborrecer minha mãe.
– Ora, minha filha, não fiz nada – respondo, agora percebendo minha filha já de pé, segurando a mãe para não deixá-la cair. Tão parecidas!
Num outro canto, ouço cochichos, sibilos, cicios.
– Internar.
– Onde? Como?
– Mas quem vai querer o traste?
– Agüentemos mais um pouco. Logo emborca, embarca mesmo.
– Vaso ruim não quebra, minha filha – diz alguém com voz cínica, bêbada e esganiçada.
– Não fale assim dele. É meu pai.
Viro-me para ele, o cretino do meu genro e...
– Imbecil! Imbecil! Imbecil! 
E três batidas firmes na mesa.
Minha voz saiu clara, mas todos insistem em dizer que, de tão bêbado, nem consigo falar. Deve ser o maldito bolo crescendo na minha boca que me obstrui a voz. E, agora, todos me condenam e chegam ao consenso de que é melhor internar.
– E rápido. Amanhã mesmo. Amanhã mesmo, logo cedo.
Cochichos. Sibilos. Cicios.
***
Daqui a pouco a festa acaba e todos vão embora. Festa de que mesmo? Ah, Natal.
– É tarde. Vocês dormem aqui. Arranja-se lugar.
– Eu tenho pena. Não passa de um doente.
– Então, interna-se. Não há outro remédio.
– Durmam no meu quarto, que é grande. Já está dormindo. Bebeu demais...
– Quê? A festa já acabou? – pergunto-me – Para aonde foram todos? E este silêncio... O maldito relógio. Não consigo ver as horas. A catarata anuviou tudo.
– Meu bem. Meu bem – digo alto, isto algum dia. Dúvidas. Pensamentos. Fantasmas que me assustam – Xô! Xô! Quê? Internar? Levanto-me. Upa, upa, quase caio. Internar? Ora, mas quem eles pensam que são? Separar, separar assim, cruelmente, duas vidas que Deus... E o que Deus uniu o homem não separe. É um mandamento. Um mandamento. Um... Para sempre juntos, para sempre.
***
            Dirijo-me ao quarto dela. O meu fica um pouco mais lá no fundo do corredor. Casa grande... Faz anos que nos separamos. Mas estamos juntos. Repare bem: juntos. É um paradoxo, eu sei, mas o teto ainda é o mesmo. Habitamos o mesmo espaço, partilhamos tantas coisas de anos: o cheiro dela, a voz, o andar, antes lépido e fagueiro, hoje arrastado. É esse som. É esse cheiro de alfazema. Os gritos e os desarranjos. E foi principalmente o ronco que, tantas noites, passo a passo pelo corredor, levou-me ao quarto dela, e lá, quietinho, no escuro, ouvia-o com prazer. De certa forma, esses pequenos detalhes preenchem minha vida, sem os quais não vivo. A faca. E o que Deus uniu, o homem não separe.
            A porta aberta.
            – Venha, venha por aqui. Escuro, mas o tato já sabe o caminho. Cuidado, o pé da cama. Aqui. Aqui, um momento, paremos. Ouça:
            – Ronc! Ronc! Ronc!
            – É o ronco dela. Aqui os pés. Aqui a barriga. Aqui a cabeça. E aqui, mais embaixo, o coração.
            Ergo a cabeça e as mãos para o céu escuro do quarto e desço de vez, uma, duas, três vezes.
            – Meu amor! Meu amor! Meu amor!
***
            O escuro do quarto não me deixa ver o corpo. Sinto-o.
            O corpo meio curvado, feito criança no útero. Sangue. Criança no útero, abortada. A boca travou.
            – Não, não faça birra. Birra é uma palavra do meu tempo, quer dizer “teimosia.”
            Os lábios ainda mornos, viçosos e carnudos... Ainda como antes. Sinto-os com os meus. O gosto de sangue na boca. Beijo de sangue...
            – Ela apagou – digo por fim, com a certeza de quem desperta de um sonho tenebroso. Acendo a luz e vejo dois corpos na cama.  No mesmo instante, minha mulher abre a porta do quarto, olha a cama e vê o corpo ensangüentado. Leva as mãos à boca e arregala os olhos. Um grito de pavor ecoa por toda a casa.