Não é sempre, mas às vezes levo sustos enormes. É como um
rio que a gente navega, navega, mergulha nele, afoga-se nele, e nem se dá conta
de que o rio é o curso de sua vida. Tenho essa impressão quando concluo algum
texto, às vezes. O engraçado é que há um disfarce medonho, um terreno e tempo
distantes, personagens nunca antes vistas ou sabidas, como se tudo isso
pertencesse ao alheio, ao que não nos diz respeito. E o susto que tomo é este:
saber que nada do que escrevo é alheio, o susto é saber que tudo o que escrevo
diz respeito a mim, mesmo que distante, estranho, escuro, inconcebível,
metamorfoseado em dragão ou em sereia, eu sou a fonte, eu sou o rio que
deságua, para o abismo, para o fim, para o nada.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Capítulo de algo maior, ou menor. Sei lá.
***
A luz do sol apareceu vermelha, rasgando o céu, lá por trás
da península de Maraú. A ilha da Gerumana era uma sombra se elevando sobre o
mar do canal. O ar ainda frio. Logo o sol desceria queimando tudo.
Teófilo ouviu um estrondo, vindo lá das bandas da Ponta de
Caieira. Imaginou que fosse Raimundo Reis matando os peixes.
“Um desperdício. Uma maldade com a natureza. O desgraçado
ainda vai se dar mal. O certo é pescar de linha, de rede de arrasto; o certo é
usar a malha certa na rede, para não pegar os peixes pequeninos, que não servem
para comer. É certo usar bomba? Milhares de ovas perdidas. O homem é burro.
Raimundo Reis também é meu amigo mas é burro. Que mal fiz a Deus para ter um
amigo burro?
Acendeu outro cigarro e tomou rumo contrário ao som da
explosão. Não queria ouvir os estrondos. Foi para longe, para um lugar onde
pudesse apoitar sua canoa, preparar sua isca e esperar que o peixe graúdo
viesse morder o seu anzol.
“É diferente. É muito diferente. Pesca-se o necessário; não
há matança desordenada. Diabo! O fim não justifica o meio.”
Imaginou Raimundo Reis catando as tainhas da superfície. O
samburá do infeliz devia estar entornando peixe, mas não lhe era suficiente, o
pescador sabia que lá no fundo estavam as tainhas gordas, por isso mergulharia
e iria buscá-las.
O sol se escondeu atrás de grossas nuvens, lá onde a
península descamba para o oceano. Nuvens negras, volumosas. O mar do Canal
escureceu e a paisagem mudou. Desenhou-se um quadro de chuva. Teófilo percebeu
que tudo ficou quieto. Julgou que fosse a explosão da bomba a causa de tanto
silêncio. Deve ter assustado as garças e os savacus. Um bando de periquitos e
todo o estardalhaço que fizeram, quando cruzaram o Canal, se ouvia agora longe,
quase como uma ilusão.
Teófilo apurou o ouvido, na tentativa de ouvir a voz de
algum outro pescador. Por aquelas bandas era comum um pedaço de voz vir bater
nos ouvidos. O vento trazia e levava, num bater de asas.
“O tempo virou! Nenhum som. Nada. Ora, o mar está para
peixe.”
Lançou a linha ao mar e esperou.
“Que mais se pode fazer nessa vida?”
***
Fragmento de "uma coisa" que estou escrevendo;
tomara que vingue.
***
Eugênia, depois que percebeu que o marido havia saído,
levantou-se, pois não estava com sono. Pegou o candeeiro pendurado em uma viga
da casa e o colocou sobre a mesa, assim poderia ler o Almanaque Capivarol,
exemplar que lhe dera seu João Celi, quando ela fora à vila comprar remédio
para cólica. Era a única coisa que tinha para ler naquela casa. Havia uns casos
e piadas engraçados na revista. Já os lera todos, mesmo assim sentia certo
prazer em voltar à leitura, como se fosse a primeira vez. Sabia tudo de cor,
mas havia um engenho na leitora que fazia com que a cada nova leitura brotasse
da história algo novo. Ou como se a pessoa que estava lendo já fosse outra.
Assim Eugênia se pôs a folhear a revistinha. E parou num caso conhecido. Ao
terminar a leitura, estava emocionada, como se todos os problemas do seu mundo
real tivessem deixado de existir. Naquele momento, só ela e a leitura. Desviou
os olhos do almanaque e olhou a parede à sua frente. Agora uma outra história,
também já vivida e repetida por Eugênia, saltou dos seus olhos e foi se
desenrolar na parede. Ela era a espectadora. A luz amarela e trêmula do
candeeiro projetando e dando movimento às imagens na parede. Era uma história.
E era uma história triste. A história de um amor proibido. O filme parou de
repente. Eugênia apagou o candeeiro com um sopro forte e as imagens
evadiram-se. O cenário do mundo escureceu. Bobinha! A história não para nunca.
Ela é filha do tempo. Ela continua, mesmo no silêncio, mesmo na escuridão...
***
domingo, 1 de abril de 2012
Anjinho
A
igreja agora é bonita. Limpa, por fora. Dá gosto olhá-la de longe,
destacando-se na Praça da Matriz. De perto, então, apura-se o olfato e ainda se
sente o cheiro da tinta fresca entrando pelas narinas e pelos olhos,
enebriando, deixando o povo tonto. Toda renovada, ela que é tão antiga. Suas
torres, braços incansáveis, erguem-se aos céus, clamando a Deus os inúmeros
pedidos. Maria Dasdolores de Vulpian, rogou a Nossa Senhora que curasse seu
filho Anjinho do puxamento que o maltratava desde que nasceu. Até mesmo ela,
que nunca adentrara aquele sagrado santuário, recebeu uma dose do santo
remédio, o restante da cura viria por merecimento. O menino, rosado nas
aparências, pareceu-lhe sarado. Acendeu duas velas pequenas e ficaram
acertadas, ela e a santa. O asmático, alheio ao acerto de comadres, continuou
fazendo suas necessidades no terreno da igreja, lá nos fundos, ao lado da
sacristia, onde dormia, num esquife, o Nosso Senhor Morto. Arriava o calção,
agachava-se e deixava no terreno a sua obra sagrada. E isso era sempre de
tardinha, antes de seu João Grande se dirigir à usina e botar o gerador para
funcionar. A figura enorme do homem, figura que faz jus à alcunha, aterrorizava
o menino. Por isso, sempre que Anjinho suspeitava a aparição de seu João Grande,
arrancava folhinha de mato e limpava-se às carreiras. E às carreiras saía do
beco do motor, gritando:
-
A vara! A vara!
Nesse
momento, ele já não tinha mais medo de seu João Grande. Agora, o que sentia,
era emoção. No canto da sala de sua casa, lá estava a vara comprida e flexível
de araticum. Pegava-a com mãos nervosas e saía correndo. Postava-se no oitão da
igreja e, com a vara à frente, aguardava. Logo chegavam os outros meninos, uns
com varas, outros com pedras.
Vulpian,
que então fumava encostado à porta de seu bar, disse:
-
Olhe, Dasdolores, lá estão os malvados.
Mal Vulpian acabou de falar e de dentro do bar, que também era sua casa, saiu seu
filho Anjinho com uma vara comprida.
-
Epa! Epa! Mocinho! Onde pensa que vai?
-
O menino parou, manso. A feição, de anjo remelento. A respiração e os olhos,
fiapos de nuvem. Os cabelos, louros, escorridos. As faces, sujas. E as mãos, determinadas,
segurando a vara. Continuou parado. Não era o menino que estava parado. Tudo
estava parado fazia tempo naquele lugar. Desde a fundação da Aldeia, que
chamaram de Aldeia da Purificação, com a chegada dos jesuítas da Companhia de
Jesus, no ano de 1654, com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os santos
encarnados vieram, plantaram coisas e se foram. Deixaram em seu lugar imagens
de barro, sacralíssimas. Deixaram a construção imponente, plantada no meio da Praça
da Matriz. Em redor, casinhas penitentes, ajoelhadas, diante da grande Casa.
-
Oxe! O que foi isso?
Uma
imagem nos passou de repente diante dos olhos. Chegou-nos como se fosse a
lembrança adormecida e fresca do furúnculo que o menino acabou de espremer.
-
Pare de mexer no furunco, menino; vai magoar a ferida, gritou-lhe o pai. Olhe
só para isso, Dasdolores, o carnegão de fora.
Ora!
Mas o menino nem percebeu que mexia na ferida. Olhou o dedo sujo de sangue
pustulento e de outras imundícies e rápido limpou a sujeira no calção. Saiu
correndo, gritando:
-
A vara! A vara!
-
Diabo de menino! resmungou o pai.
-
E não pode se cansar, Vulpian, disse a mãe. Mas é menino, e menino precisa de
brincar. O coitadinho... Deus tenha piedade... Meu anjinho...
Juntou-se
a outros meninos, que aguardavam seu João Grande ligar o motor. Essa expectativa só aumentava a emoção. As
mãos envolviam as varas de araticum com força. As pedras sonhavam um destino
certeiro. Jajá de tio Wilson disse:
-
Vou acertar o Diabo em cheio. Vamos seu João, liga logo esse bicho, gritava de
longe da usina.
Até
Zezinho de finada Linda de Epitácio, que só andava doente e nem aguentava dar
uma carreira, nessa hora arrotava:
-
Vou acertar dois de vez.
Só
Anjinho não dizia nada. Mas todos podiam ver nos seus olhos a bravura reluzir. O
motivo vinha de longa data, funcionava como rito de passagem dos meninos,
consagração a Deus e renúncia ao... Deus me livre, pois não digo esse nome. É
que também eu fui menino de lá. Os pais nem reclamavam.
-
É bom que se mate esses bichos; filhos do Diabo – os homens crescidos tinham
coragem de dizer.
Não
demorou muito e logo se ouviu o ronco da máquina. As luzes dos postes de
madeira se acenderam. Mas ninguém viu a luz, nem ouviu a Ave Maria que começou
a tocar no rádio, no bar de Olica. Nenhum dos meninos fez o sinal da cruz. Anjinho,
preparado, disse:
-
As varas! Aí vêm eles!
E
logo a legião de diabinhos se atirou rua afora e ganhou o beco da igreja. Formavam uma nuvem preta, assombrosa, davam
pequenos gritinhos e batiam as asas desordenadas. Chegaram rápidos, num
sobrevoo rente à cabeça dos meninos, e logo sumiram. As varas e pedras também mexeram-se
rápidas. Umas cortaram o ar ligeiro e
nada encontraram; já outras, certeiras, atingiram o alvo em cheio.
Cinco
morcegos no chão. Uns parados; outros ainda se debatendo, emitindo gritinhos estridentes.
Anjinho
chegou perto de um e disse:
-
Cara de rato. Rato, vira morcego! Rato vira morcego e foge tritritri avoando. Jajá,
morcego se desvira em rato?
Jajá,
que tinha resposta para tudo, respondeu, enraivecido:
-
Ele vai virar é diabo morto!
Levantou
o pé e desceu-o com toda a força sobre a cabeça do bichinho. Depois ficou
girando o pé, esfregando a cara do coitado no barro da rua.
-
É assim que eu me vingo, filho de Satanás!
Anjinho
achou o que Jajá fez muito errado. Deixou o morcego imprestável . Pois morcego
morto não serve para nada. Por isso ele olhou rápido para os outros que estavam
espalhados pelo chão. Viu um se arrastando, tentando fugir. Rápido, gritou:
-
Não mate, Jajá! Esse é meu.
-
Oxe, e vou lá matar! Já tive o meu; quero é ver se morcego se desvira em rato.
É todo seu. Pronto, já vi que não desvira. Pode matar.
-
Vou matar depressa não, respondeu Anjinho, olhos fixos no bicho.
-
Ora! E vai matar como?
O
menino não respondeu. Mas tudo já estava preparado: o tronco da bananeira no
fundo do quintal de sua casa, as brochas que arrancou de uma tábua velha, e
agora o morcego, que era o que estava faltando.
Jajá,
não tendo mais o que fazer, provocou:
-
Se desvira em rato nada!
Então
Anjinho, que saiu com essa novidade, explicou:
-
Desvira, sim; ele, deve, estar, é, com, vergonha. Fiiuuu. Ou, então, ainda, é,
novo; tem que, ser, morcego, velho... Fiiiuuu. Largata, não, vira, bor-bor-bor-bo-leta?
E...
-
Mas borboleta não desvira em lagarta, desvira, miadinho de gato? E não é largata, é “lagarta”.
E
Jajá deu uma carreira rua abaixo, à procura de praticar maldade com outros
bichos indefesos.
Anjinho
pegou o morcego, que ainda se debatia, e levou-o para sua casa.
Entrou
com o bicho meio escondido, para que seus pais não vissem. Sabia que iriam
reclamar. Pais, quando grandes, reclamam de tudo. O menininho nem pode levar um
bicho para casa. Tem que ser assim, escondido. Será que pais adultos pensam
que meninos são bestas? Tadinhos...
O
menino entrou foi na arte natural da sonsidão. No fundo do quintal colocou o
bicho sobre uma folha grande de cacaueiro. Olhou o tronco da bananeira.
Lisinho. Pegou as brochas, que deixara escondidas no porão de um de seus
barquinhos de cortiça, e pronto.
Foi
difícil segurar a asa direita e a brocha ao mesmo tempo em que segurava a asa
esquerda. Mas conseguiu enfiar a primeira brocha. A segunda foi mais fácil.
-
Pronto. Aí está você, pássaro do diabo, Anjinho praguejou.
Ficou
parado em frente ao morcego. De asas abertas, pregado no tronco da bananeira, o
bichinho imóvel, a cabeça ainda firme, querendo reagir, como se pretendesse
soltar-se do resto do corpo. Deu um gritinho de sofrimento. O menino se
arrepiou. É que a escuridão descera, e o menino, tão entretido com o morcego,
nem percebera. Mas a escuridão agora vem lhe dizer que mete medo. Que o
quintal, ali pelos cantos, sob as folhas, e logo mais por todos os escuros, o
ambiente agora é dela. Que ele deve entrar em casa, sair do quintal correndo,
antes que ela o prenda nas suas asas negras.
O
menino olhou para trás, rápido, como se tivesse levado uma cutucada de alguém,
ou de alguma coisa. Mas nada viu, ou viu apenas o grande vulto que crescia por
todos os cantos, e em redor de si.
Medroso,
deu uma carreira e entrou em casa.
Maria
Dasdolores e Vulpian mais outros filhos, que não interessa nominar nem
quantificar, já estavam à mesa. Anjinho
entrou correndo e foi se sentando no seu tamborete. A mãe foi até o fogão de
lenha, pegou a chaleira que estava sobre a trempe e derramou o café na caneca
do menino. Deu-lhe um bolachão e ele começou a comer. Depois que Anjinho
terminou de tomar o café, ficou na mesa ouvindo a conversa dos pais. Mas não
acompanhava nada do que eles diziam. Apenas algumas palavras febris lhe
chegavam desmaiadas.
“Puxamento.
Coitadinho. Na venda de seu... Piorando. Xarope de... Caro. Come, meu filho,
disse a mãe, pasando a mão na cabeça loura do filho. Vai ficar bom, disse o pai,
agarrando-se no invisível.”
O pensamento de Anjinho
estava mais voltado para o morcego pregado na bananeira. Pensou que talvez ele
já tivesse morrido. Ou se desvirado em rato. Concluiu que, se ele tivesse se
desvirado, já não estava mais lá. Se ao menos ele pudesse vê-lo. Mas o quintal
tão escuro! Espiou pela janela, mas não viu nada. Até colocou o fifó na direção
da touceira de bananeiras, viu um vulto atravessar o clarão do fifó e se
embrenhar por trás das folhas, fechou a janela rápido e foi dormir.
Logo
toda a casa entraria em sono profundo. O dia começava bem cedinho, com o céu
ainda escuro, mas enfeitado de estrelas. A mãe cuidava de tudo. Acendia o fogão
para fazer o café. Acordava os meninos para irem à escola. Depois que os
despachava, intercalava os afazeres domésticos com ajudar o marido no bar. Os
meninos chegavam da escola, almoçavam e iam brincar, ou então tomavam banho no
rio, ou judiavam os catendes, ou matavam murunhanha, ou não faziam nada, apenas
paravam alerdados, espiando o tempo passar se arrastando, na rua. Os dias eram
longos.
A
mãe acendeu a lamparina no quarto dos meninos. Deixou a chama bem baixinha,
para economizar gás. Rezou o Pai Nosso com eles, deu um beijo em cada um e
saiu.
Logo
todos dormiam. Menos Anjinho, que não conseguia desgrudar o pensamento do
morcego pregado no tronco da bananeira. Os irmãos todos enrolados em cobertores
franciscanos grossos e macios. O silêncio doía nos ouvidos. Um som ensurdecedor
que vinha não se sabe de onde. Se ao menos ele pudesse dormir logo. Mas não, tem
de ficar pensando no bicho pregado na cruz. Bicho pregado na cruz? Nessa hora o
menino avistou o Nosso Senhor pregado na cruz. Ele bem à sua frente, na parede
do quarto. A luz da lamparina sem alumiar bem. Luz confusa. Luz que mistura o
claro com o escuro, numa dança enebriante. As horas entontecidas, deixando a
noção do tempo lassa. É de deixar a vista maluca. Umas visões. O Nosso Senhor
pregado na cruz se mexendo. Talvez ele ainda
esteja vivo, e sofrendo. Isso é maldade. O menino já arrependido, pede perdão a
Nosso Senhor, pois não devia ter feito aquela ruindade. Que animal é mamífero e voa? Ouve a professora
perguntar, na escola. Ninguém soube responder. Então ela disse que galinha era
animal ovíparo; e o cabrito, herbívoro. E o morcego? O morcego é o quê? ela
perguntou. Anjinho se adiantou e respondeu:
-
Sanguífero, ele respondeu. Sanguífero! Sanguífero! ele grita bem alto agora, mas
o som morre-lhe no peito asmático.
A professora não achou graça. Disse que a
resposta estava errada. Botou o menino de castigo. Agora ele já sabe que
morcego é mamífero, e voa. Mas que castigo! Que mal ele fez para ficar pregado.
Ele tem a cabeça pendida para o lado. Ele já deve estar mesmo morto. Mas se
está se mexendo? Morto é morto. Morto não é vivo. Mesmo assim o que é morto dá
medo. Ele é tão magro. É de hoje que Ele morreu... Esse era homem e virou anjo.
E o anjo se desvirou em homem no terceiro dia. E o outro, vai se desvirar em
quê? Quando?
Veio
a noite alta e o menino lá, acordado. Até fez força para dormir. Mas visões
assustadoras afugentaram-lhe o sono. Começou a sentir medo. Ora, mas medo de
quê? Só por que matou um bichinho maldito? Estaria ele com medo de ser castigado
por esse Deus pregado na cruz? Ele nem está olhando. Mas o menino de vez em
quando levanta um pouco a beira do cobertor e gruda os olhos no Jesus
crucificado. Ele tem uma luz em seu redor. É a luz da lamparina que ilumina mal
o quarto. Antes estivesse tudo escuro, assim não viria o olho de Deus, que tudo
vê, mesmo sem estar olhando. Ou seria coisa da cabeça da criança? Crianças têm
esses medos aprendidos, que apreendem-nas, prendem-nas na pior prisão, aquela
que é construída dentro de cada um. Para onde quer que se vá, a prisão interior
o acompanha, não há liberdade do lado de fora. Meus Deus, não há liberdade!
Disseram-lhe que Deus
castiga menino mau. E ele agora é um menino muito mau. Quem mandou matar o
morcego? E Jajá? Estaria ele acordado nesse momento, com medo de ser castigado
por Deus? Ou será que ele dorme, sem culpa, sem nada? Jajá ao menos é corajo e
não pensa essas coisas. Mas Anjinho, não. Anjinho nem deve ter tanto medo. O
que ele tem mais nesse momento é culpa, remorso por ter matado o morceguinho,
que também é uma criatura de Deus. Anjinho uma vez disse que o Diabo, até o
Diabo, é uma criatura filho de Deus. Que tudo que existe no mundo é criação de
Deus. Mas nunca soube dizer a ninguém quem criou Deus. Na aula de catecismo, o padre
perguntava:
-
Quem é Deus?
E
Anjinho, mais os outros meninos, respondia:
-
Deus é o criador de todas as coisas.
-
De que é feito Deus?
-
Deus é feito do nada.
Então
pronto. Tudo estava explicado. Mas um dia Anjinho, relutante, perguntou ao padre
se Deus era o pai do Diabo. O santo homem quase teve um troço. Arrancou o
menino da cadeira puxando-lhe as orelhas, deu-lhe doze bolos e o colocou de
castigo, de braços abertos por meia hora no pátio da escola, para que todos que
passassem vissem o grande maldito que é esse menino. Desgraçado! Maldito! Não
dá raiva mesmo? Ele ficou lá, meia hora e mais um pouquinho, feito um Cristo
chorão. Bem feito!
“Morre,
desgraçado, morre! Pássaro negro, filho das trevas. E cravou-lhe mais outra
brocha na asa esquerda.”
-
Engole o choro! Engole o choro! Disse a professora – ou terá sido o padre? -, apontando-lhe o dedo na cara.
Um
pecador o Anjinho, um pecador. Não lembra o que ele fez com o morcego? Deixou-o
crucificado no tronco da bananeira. Até parecia que tinha raiva do mundo. O que
os outros meninos não entendiam era o que Anjinho dizia, rangendo os dentes,
quando fazia uma maldade:
-
É assim que me vingo, filho do Cão!
E
foi pensando essas coisas que Anjinho, num momento de descuido, nem sentiu a noite
soprar-lhe nas vistas e nas narinas um ventinho de sono.
-
Fiiiuuu! expirou profundo. E fechou os olhos.
A criança continuará
sonhando mistérios...
sábado, 24 de março de 2012
Lindóia à janela
A tarde foi caindo devagar em Aldeia da
Purificação. Os cigarrões no fundo do quintal silenciaram de vez. Até parecia
que tinham combinado a hora de parar. O escuro veio escorrendo do céu e logo
foi se espalhando no ar, penetrando nos recantos. Ouviu-se o motor da usina. A
luz amarela e fraca dos postes de madeira se acendeu.
Lindóia, triste, não sentiu vontade
de sair. Também, ir para aonde? Da janela de sua casa, ela olhou a rua. Do
outro lado, na praça, o bar de Manuel de Olindina aberto. Como fazia todos os
dias, sempre no mesmo horário, ele punha a radiola para tocar um de seus velhos
discos. E ela era obrigada a ouvir aquilo. O bar vazio. Mais logo é que
chegavam os que bebiam pinga. A música avisava-os de que Manuel de Olindina já
tomara seu café e que agora o bar estava aberto. Eram os mesmo de sempre. Um
vinha gastar o pouco que ganhara com a venda do peixe; outro, o que conseguira
com o serviço de pegar água na fonte. Seu João Celi não bebia, não fumava e nem
se parecia com os poucos que se consumiam no bar. O que o atraía ali naquele
bar era Rita, a mulher de Manuel de Olindina. Puxava conversa com ela, cheio de
bons princípios, pois chegava com uma conversa de moral, de respeito aos
santos, do que se devia e do que não se devia fazer. E ela acreditava, ou
fingia acreditar que ele era um homem bom.
- A senhora é uma mulher boa, dona
Rita. – ele dizia.
Ficava falando essas coisas
agradáveis. E ela o colocava como exemplo de bom marido, sim, pois o santinho
era casado.
− Santinho?
Isso mesmo. Fingia tão bem que até ele
mesmo acreditava que era verdade as coisas que pregava. Mas, ao chegar em casa,
entocando-se no banheiro, ou mesmo na rua, em um lugar escondido qualquer,
aliviava-se pensando nela.
− Ora, mas isso não é errado.
É verdade, isso não é errado. Todo
mundo, de uma forma ou de outra, acaba fazendo isso. Essa é a história que
ninguém conta. O que se contava dela, da mulher de Olindina, era outra coisa.
Que ela era boa, isso ninguém contestava. Seu João Celi que o dissesse.
- Boa. Boa demais essa mulher – ele
dizia com os olhos lambidos.
O que se propagava era que seu João
Celi tivera um caso com ela. Mas o caso só caiu na boca do povo depois que ele
foi morar na cidade dos pés juntos. Foi Sebastião de Caboquinha quem espalhou o
fato.
− Como ele soube isso? – pergunta-me
você.
Quem sabe! Sebastião de Caboquinha,
desentendendo-se com Manuel de Olindina porque este não quis lhe vender cachaça
fiado, fez cara de ameaça e, vingativo, espalhou:
- Seu João Celi comeu Rita de Manuel
de Olindina.
“Pronto que a desgraça está feita.”
– pensa você.
Que nada! Olindina era homem de sangue
fraco. Nem espumar, espumou. Quis racionalizar um caso que era mais para
porrada, para peixeirada. Nem foi capaz de atocaiar Sebastião de Caboquinha em
qualquer esquina.
− Por quê?
Porque era um frouxo. Sabe que providência
o corno tomou? Prometa que não vai rir.
−
Vou rir nada!
− Vou levar o caso para a justiça! −
o abestalhado ameaçou Sebastião.
− Ha, ha, ha, ha, ha!
Você disse que não ia rir. Mas não
foi só você quem se escangalhou de rir assim. Sebastião riu assim. Todos rimos
assim. Até mesmo Lindóia, que tinha o ar triste naquela noite, ali, sozinha,
olhando o bar de Olindina, até ela começou a rir gostoso.
“Rita dando para o defunto... Rita,
mulher fogosa... Ai, ai... E seu João
Celi? Como é que vão prender ele, se ele está morto? Hum, esse Manuel de
Olindina é mesmo um idiota...” – ela ficou pensando.
- Está rindo de que, Lindóia? –
perguntou Manuele, que tinha acabado de chegar de Maraú naquele instante, na
lancha toque-toque de Tuninho.
- Oi, Manu. Veio ver sua vó Lalá,
foi?
- Vim ver ela, sim; e você, tá boa?
Ah, deve estar, tá rindo.
- Tô boa, sim; não estou rindo de
nada não; estava só me lembrando de um caso.
- Ah, bom. Então já vou, ufa, essa
ladeira do porto mata qualquer cristão. Até logo, Linda.
- Até, Manu.
Manuele desceu a rua deserta.
Lindóia voltou a seus pensamentos, e de novo começou a rir. E nem foi nada, só
a lembrança de um caso que, por assim dizer, estava morto. Mas, bastou lembrar,
reviver a história, para que seu João Celi, que estava morto, de um salto
começasse a reescrever sua história de amor com Rita. A história, assim, não
morre, continua pulsando, e continuará enquanto houver quem a conte e reconte.
Mesmo com aparência de morta, ela sempre será viva na memória do povo.
- Esse seu João Celi, viu... –
Lindóia pensou alto, se rindo.
Moça à janela. Imagem de Claudio Gonçalves - www.cpousada.com.br
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
A propósito de uma história
Uma história se passou na minha infância e até hoje a trago como
verossímil na memória. É a história do pescador de almas. Poderia não dizer
assim, já, de cara, de que se trata, deveria esconder as unhas, os dentes, a
malícia do bicho, até que... vamos à história.
Eu era menino e brincava na grama, lembro-me bem a cor e o cheiro desse
dia. Talvez tivesse cinco ou seis anos. Não. É certo, contava nove. A certeza
vem de uma bermuda azul, presente de meu pai. Não lembra que fazia anos e que
eram nove? Não lembra o dia verde e o cheiro de chuva? Que um pescador passou
com remo e samburá nas costas? Outro pescador, e outro, e... passaram seis,
lembra? Lembra que um deles era seu Vivaldo? Não lembra? Aquele alto de pele
queimada de sol, chapéu de abas largas; o que passou primeiro, com remo e
samburá nas costas. Lembra? Ah, bom. Pois não se esqueça: este homem é a
réplica do Diabo. Ah, não sabia que o Diabo tem réplicas? Pois fique! O Diabo tem réplicas e as têm muitas. Um
mascarado.
Os pescadores passaram. Uma senhora branca, de cabelos brancos, nariz
firme e testa pequena, apareceu na janela de minha casa. Chamou-me.
— Vem cá, meu filho!
Eu, como queria ficar brincando, fiz corpo mole.
— Ah, mãe...
E ela, firme como sempre fora, agora ordenava, porém tinha na voz certo melaço.
— Vamos, vem que não vais te arrepender.
— O que é? É doce, mãe?
Fui correndo. Chegando em casa, na sala, vi meu pai de pé, a mão direita
nas costas, sorria.
— Vamos, vem cá, menino.
Aproximei-me e ele, rápido, estendeu-me a mão que estava escondida e
apresentou-me um embrulho. Eu não soube que fazer. Tinha certo acanhamento em
presença de meu pai. Estanquei abobalhado à sua frente.
— Como é? Não queres o presente?
Temeroso — temia por respeito — recebi-o de sua mão.
— Como se diz? — perguntou-me minha mãe.
— Obrigado.
— Obrigado, meu pai — completou ela.
— Obrigado, meu pai — repeti.
— Dá um abraço em papai — mandou minha mãe.
Abracei meu pai, abri o embrulho e vi, veja você também, não é bonita
minha bermuda azul?
Anos depois soube por minha mãe que a bermuda tinha sido um presente pela
passagem de meu aniversário.
— Fazia quantos anos, minha mãe?
Respondeu-me nove. Ah, mas isso já faz tanto tempo, apenas conto para
dar-te prova de minha idade na ocasião do Diabo. Vamos a ele.
Aproveitemos que ele pesca para
construir-lhe uma casa. É preciso ter casa. Não se vexe, esta é simples, e, com
sua ajuda... —, obedece à arquitetura local: quatro toras fincadas, uma em cada
ponta do quadrado, varas dispostas na vertical e horizontal, atadas com cipó,
buracos tapados com barro batido, varas estendidas sobre a construção, piaçaba
estendida sobre as varas e pronto, eis aí a casa de seu Vivaldo. Limpemos pés e
mãos, todo o corpo, aliás, e entremos de vez.
Oxente, entramos na casa errada! Mas a história é assim mesmo:
constrói-se em cima do tempo e do espaço. Nem sempre certo é o tempo, nem
sempre bem demarcado é o espaço. Por isso entramos na casa do tempo errada. Ou,
quem sabe o erro é um acerto?
A casa fica na Rua do Campo, pertence à família dos Policarpo, o tempo é
que é um tanto incerto, 1965, 1970... 1973! A data certa vem da derrubada do
casarão; aquele em ruína, lá perto da Praça da Matriz. Lembra? Foi em 1973.
Houve coincidência de nossa entrada na casa com o fato.
Pois nessa casa mora uma moça. Ei-la sentada a coser um vestidinho. Vai
casar-se, o seu nome é Sônia, 20 anos, boa moça, prendada... vai casar-se com
Vivaldo, o pescador. O acerto — eis o erro — do casório já foi comunicado a
todos. E todos estamos felizes pela união de Sônia e Vivaldo.
Epa! Essa última frase quem disse foi o padre.
Casados, vão morar na Praça da Matriz. A casa
parece a Sônia um mondrongo, mas, como o olho se acostuma rápido com o que vê,
com o tempo vai gostando.
— É a casa do meu amado! É a casa nossa! A casa dos meus sonhos! Ah, como
sou feliz!
É, Sônia amava mesmo o marido. Mas vamos aos fatos.
Passaram-se cinco anos e nada de Sônia engravidar. Engravidar é preciso,
viver não é preciso — paráfrase vagabunda! — Mas o que é a história se não se
pare? Se não se pare, morre-se em si, morre-se a história. Sônia é o útero
conceptível desta história. Cinco anos, cinco anos e nada. O jeito foi recorrer
a um pai de santo. Ora, mas não foi por causa da infertilidade! Então não sabes
que ela perdia o marido? Para a Clotilde, uma sirigaita, intrusa na história,
simples ponta, sem crédito; então a deixemos aqui, morta e enterrada.
Havia o padre como conselheiro matrimonial. Mas não era isso o que Sônia
queria. Queria era prender o marido às amarras de seu coração, um feitiço
forte, que mandasse a outra para longe, que a deixasse na pele e no osso,
que... enfim, que a matasse.
Vê como a história não conhece tempo? E não já enterramos a outra?...
Continuemos.
O pai de santo conversou com o Coisa e, ambas as partes estando
acordadas, fez-se o pacto. Daí a nove meses nasce a menina. É forte, é bonita,
é morena; é a cara do pai.
— É uma menina mulher! Bonita como o diabo! Vai se chamar Janaína — diz,
cheio de orgulho, Vivaldo.
Nascida a menina, o pai de santo visita Sônia e lembra-lhe do contrato,
da cláusula.
— Ora, mas que cláusula, painho?
— A menina, Sônia, a menina é o preço. Depois pode ter outros filhos, mas
esta... esta não lhe pertence, sabe de que falo... é o preço.
— Sacrificar a menina? — pergunte-me, leitor.
— Sacrificar a menina?
Isso mesmo. A menina nasceu de uma conjunção entre Sônia e o Diabo. As
vias de transe, ou, se quiseres ser moderno, vias da transa, aconteceram em
ritual satânico, onde a mulher, deitada e completamente nua, recebeu o falo
espiritual. Ouviram-se os gritos do gozo. Deram-na por louca. O pai de santo e
curandeiro a tratou com banhos de folhas e rezas. Dias depois estava boa e
prenhe. Podia ter muitos filhos. O casamento estava a salvo. A história pode
continuar.
Aqui bem cabe um fim, mas a história é fértil, continuemos.
Que a história também dá lá seus pulinhos, todo o mundo sabe, por isso,
pulemos onze anos.
Eta pulo mal dado desgraçado! Não, tudo bem, caímos em tempo e lugar
certos. Uma menina que pulava a cancela foi que... Vamos à história.
Que venha Janaína.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Olhar mortiço de sedução
Romildo passou e falou com
Janaína, na praça. Ela derramou um olhar mortiço de sedução pra cima dele. O
besta não percebeu. Com uma visgueira na mão, ele disse que ia pegar um
guriantan que tinha visto no pé de capiá, no quintal de dona Carmelita.
— Eu te dou ele de presente pra você,
Janaína.
Ela, que já ia lá adiante,
virou-se e foi esparramando pelo chão, até alcançar os olhos de Romildo, um
olhar grudento. Tão grudento como aquela visgueira que ele tinha na mão. O
corpo do moço buliu. O coração disparou. Ele deu uma carreira. No mato esqueceu
o passarinho. Escondido numa touceira de bananeiras, invocou o feitiço da alma
de Janaína. Arriou o calção, fechou os olhos e mandou sua alma lambuzar-se com
a alma daquela diaba. Um fogo subiu-lhe por todo o corpo. Eram as formigas de
fogo e as formigas caçarema atiçando fogo no corpo dele. Gozou, aliviou-se.
Livrou-se das formigas e foi ver se ainda pegava o guriantan que cantava no pé
de capiá, no fundo do quintal de dona Carmelita. Chamou-se de sortista, o
bichinho ainda estava lá, e mais bonito, mais colorido, azulado nas costas, o
peito amarelo, e trinava forte. Mansinho, pareceu-lhe. Subiu na cerca e trepou
numa galha do pé de capiá, sem fazer barulho, sorrateiramente como ele sabia se
mover no mato. Pensou em Janaína. Ela ia gostar do presente. Um presente de
amor. E o guriantan ia cantar todo dia de manhã cedo e o canto dele ia entrar
no ouvidinho dela, no pensamento, e ela ia pensar que era um sonho colorido.
Sonhava com Romildo e arriava de novo aquele olhar meloso. Acordaria pensando
nele e descobria que o amava. O guriantan, agora pulou para a outra galha. Romildo,
sabe-se lá por que diabos, resolveu que ia pegar o pássaro de mão. Contaria a
Janaína como foi e ela ia ficar garbosa do feito. Não era gabação não. Romildo
tinha mesmo jeito para pegar passarinho. Tinha dias que ia pro mato e voltava
com japiranga, sabiá, até sanhaço; os beija-flores chegavam mortos, de
badogada; e os sanhaços, estes não sobreviviam em gaiola. Os nicos eram
engraçados. Pegava-os todos, passarinhos e outros bichos, no manzuá. Os
coitadinhos entravam pelo buraco e não encontravam a saída. Mais um pouco e Romildo
botava a mão no guriantan. Bateu um vento. A árvore fez que ia cair. Romildo se
segurou. A galha embalançou. O passarinho avoou. Pousou, na ponta de uma
galhinha, fina, lá Romildo não ia. “Eu vou”, disse ele. O vento ficou por ali.
As outras árvores, quietas ele as deixou. Rondava o pé de capiá. O guriantan
abriu as asinhas eufóricas, afinou o bico e cantou forte. Romildo se encantou.
Pensou em Janaína. O passarinho, ali, pertinho. Lançou a mão, o passarinho,
rápido, avoou. Voou para longe no vazio, assoprado pelo vento que o levou. E Romildo,
não achando nada no vazio, desequilibrou-se e de lá do alto seu corpo
despencou. Ainda ouviu o badalar dos sinos da igreja de Nossa Senhora das
Candeias chamando o povo para a procissão. Ainda ouviu, na queda, o farfalhar
agoniado das folhas do pé de capiá. E o último som que ouviu foi o do próprio
corpo caindo veloz, cravando-se nas estacas da cerca.
Na igreja, o sino badalava, e
não havia cortejo nenhum para a alma de Romildo, que já ia longe, travada, para
nunca mais...
No mato um bacurau piou...
***
Trecho de O Pescador de Almas
Foto de Roberto Harrop - Guriatã ou Gaturamo verdadeiro (Euphonia violacea) - retirada do Flickr
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Natureza
Abriu os olhos com o cantar do galo num terreiro
distante. O negrume da noite ainda se escondia sob as folhas das gameleiras e
dos cacaueiros. No céu brilhava a estrela d’alva. Na rua um vozeirão de homem
convocava para a pescaria.
— Ei Lapinha, acorde, tá na hora.
— Babo, ei, Babo, vambora, rapaz,
tá na hora.
No mesmo horário vinha João do
barco avisando quem fosse viajar para Camamu que estava na hora de acordar. A
maioria já estava com o café tomado e com a bagage pronta. João do barco
só chamava uma vez. Chamava e descia para o porto. Muitas vezes o rio estava
seco e os viajantes tinham de andar até a boca do rio, na coroa, onde o barco
estava ancorado. Se o rio estivesse um pouquinho mais cheio, mas não tão cheio
que o barco pudesse entrar ou não suficientemente seco para que os passageiros
pudessem seguir a pé, os viajantes tomavam uma canoa emprestada ou então
pegavam carona com algum pescador que estivesse saindo e iam até o barco. As
mulheres iam acocoradas no fundo da canoa. Os meninos já maiorzinhos
equilibravam-se de pé. O remador ia atrás, na popa, também de pé. E fincava o
remo na areia do fundo do rio e empurrava, a canoa avançava desequilibrando-se
um pouquinho e as mulheres faziam ui, os meninos davam um risinho
fazendo pouco do susto que as mulheres levavam. Os maruins atacavam a pele. Os
sururus na lama do mangue estalavam. Os aratus e os caranguejos espiavam com
seus olhos compridos. E o cheiro do mangue e do mar era tão forte! Era a
natureza em todo a sua vitalidade. E o corpo do remador também era forte.
E sua pele era da cor da lama do mangue. O remador era uma extensão da água do
rio e da lama do mangue. A água do rio era salgada e inundava o ar com seu
cheiro forte de maresia. Assim também era o homem, do seu corpo transpirava um
suor salgado e o cheiro que saía junto era cheiro de mar, de sal, de lama. O
homem fazia parte daquela natureza. E ambos, homem e natureza, conviviam
harmonicamente, interpenetrando-se, confundindo-se, fundindo-se um no outro. O
homem feito de mar e lama ia na popa, e do seu rosto negro espiavam dois olhos
brancos... uma garça piou assustadiça e avoou no céu...
O homem feito de mar e lama
apoitou a canoa do lado do barco. Os passageiros, os homens com jeito, as
mulheres desajeitadas, transpuseram-se para a embarcação que os levaria a
Camamu. O homem da canoa puxa a poita, dá um empurrão no bojo do barco e a
canoa se afasta disparada. Já vai lá longe, beirando o mangue, confundindo-se,
fundindo-se, sumindo-se... só se vê um céu azul emborcado no mar, e um
manguezal verdejante a perder-se de vista...
* * *
João do barco gira a manivela
do motor e o barco treme nervoso. O eco seco da máquina bate no mangue e o tá
tá tá tá tá ressalta, ressoa, é o atabaque da mata, tá tá tá tá tá.
No espelho trepidante do mar
avoa uma garça... lá no profundo das águas, perto do céu azul...
Trecho de O Pescador de Almas
Cântico de Verônica
Na porta da professora Izabel
havia uma mesinha enfeitada do lado de fora. Por um momento a procissão parou.
Adelina subiu em uma cadeira e, com o sudário com que Verônica enxugou o rosto
de Cristo nas mãos, ela entoou um hino em latim.
“O vos omnes,
qui transitis per viam,
attendite et videte,
si est dolor sicut
dolor meus”
Era o hino de Verônica. À
medida que cantava, ora sungava o pano com as pontas dos dedos, devagar; e ora
o abria totalmente, e todos podiam ver o rosto de Cristo estampado em vermelho. Seu Dudu
batia a matraca, Adelina descia muito emocionada da cadeira e a procissão
continuava.
Agora era a vez de Adelina
subir na cadeira e cantar o hino de Verônica na porta de dona Anita. E as
palavras lamentosas diziam:
“Ó
vós todos
que
passais pelo caminho,
parai e vede
se
há dor igual à minha dor.”
Trecho de O Pescador de Almas
Igreja
— Essa igreja, essa mesma,
quando foi construída, isso lá pelos idos de mil seiscentos e tanto, foi
construída com a frente voltada para o mar, mas, dias depois, o povo ficou
abismado, a igreja estava com a frente voltada para o vilarejo. O povo
respeitou a vontade da santa, deixou a igreja com a frente voltada para o
vilarejo, essa mesma, lá pelos idos de mil seiscentos e tanto...
Trecho de O Pescador de Almas
Os passos do medo: uma herança cultural
— Bom Jesus dos Passos mete
medo nas crianças com aqueles cabelos compridos e com aquele vestido lilás e
com aquela posição acorcundada. Minha avó tinha medo, minha mãe tinha medo, eu
tive medo, meu filho mais novo tem medo, acho até que minha bisavó e também a
mãe dela, as duas tinham medo. É um medo antigo.
Trecho de O Pescador de Almas
domingo, 22 de janeiro de 2012
Caipora
Deram seis horas. Há pouco ainda se ouvia o canto altissonante dos cigarrões, mas o som da orquestra foi baixando, baixando, e logo o silêncio. A tarde caminhava ao encontro da noite. A luz esmaecida do dia estendia-se preguiçosa na praça e nas duas ruas de Aldeia da Purificação. Mas a escuridão já se prenunciava nos cantos. Abria-se a porta escura do quarto e logo ela ia escapando pelo corredor. Fechava-se a porta do quintal e logo um manto negro formava-se na cozinha. Os candeeiros estavam a postos pendurados nos portais, ou sobre cômodas e armários, ou na mão de alguém que o levará com cuidado, para não apagar. Todo o lugar é silêncio e sombra.
Olhe lá para baixo, nessa rua, e veja
alguém.
Está vendo? Não vê nada.
Rua comprida. Lá embaixo, quem tem
imaginação, verá corpos escuros atravessando a rua, saindo do beco de seu
Edson. Mas não são ninguém. São só confusão dos olhos. Esses vultos escuros.
É capaz de ouvir uns sons, uns bu, bu, bu, que não se sabe de onde vêm?
Esses sons vêm do fundo do quintal da
casa de Linderzer Moreno, que já morreu faz tempo. Morreram todos. Enquanto ele
toma café com a mulher e a filha, que é fraca do juízo, ouve-se no fundo do
quintal os bu, bu, bu, que são os pios do bacurau. Quando o agouro
da ave se prolonga, o pai chega à janela e, batendo com o facão na pedra, diz:
- Toma fumo, caipora!
− A ave silencia, intimidada com a voz
grossa de Linderzer Moreno, voz que fica ecoando, vagando perdida. Até hoje. A
voz ameaçadora do homem assusta mais que os bu,
bu, bu, daquela ave, que ele julga ser a caipora.
− Ora, paremos com esse discurso
abestalhado de caipora, que aqui não há lugar para isso! – você me diz.
Tudo bem, mas não se esqueça: o povo
acredita. E essa é uma realidade mais dura do que pedra. Não é coisa que se
desfaça com um sopro.
Vamos, apure o ouvido; vê se ouve.
- Bu,
bu, bu!
- Toma fumo, caipora!
Estas palavras repercutirão no juízo do
povo, até o fim dos dias, de geração a geração. É uma praga.
- Bu,
bu, bu!
- Toma fumo, caipora!
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
A ÚLTIMA CEIA
Olho minha
mulher sentada à mesa. É Natal. Ceamos. Posso olhá-la à vontade, até certo
ponto. Cronometro na cabeça o limite do meu olhar. Às vezes, propositalmente,
ultrapasso essa barreira cronológica, só para ouvir seus xingamentos, só para
sentir no meu coração apaixonado todo o ódio que ela nutre por mim. Ela bate na
mesa com sua mão firme, que antes, isto bem antes, me acarinhava. Agora bate.
Mas não me fere. Cada vez que a provoco é para que saiamos da inércia em que
nossa vida se enfiou. Grita comigo. Minha linda mulherzinha esbraveja comigo e
um pouco da comida da sua boca salta e bate no meu rosto, na minha boca. Abaixo
a cabeça.
– Homem
submisso. Fracote. Molambo – sei que ela diz essas coisas de mim. Mas o que ela
nem ninguém percebem é que, ao me abaixar, submisso, o meu amor se nutre um
pouco da vida dela. A língua lenta lambe o lábio e recolhe o alimento
triturado, amassado, salivado pela sua boca.
***
– Quer mais
frango? – ela perguntou outro dia. Quando? Olhe como o tempo é engraçado! Faz
tanto tempo. Já se passaram tantos Natais.
– Quer mais
frango? Vamos, queira, vou servir.
– Posso pegar
uma coxa? – pergunto.
– Animal.
Animal. Não pode ver comida. Tudo para se amostrar. Quando vê gente fica assim
– ela diz, nervosa, e, sem modos e sem paciência, enfia com raiva um garfo
enorme na coxa do frango, na maior coxa, na mais gorda coxa, e atira-a dentro
do meu prato, respingando óleo na minha roupa branca de festa, manchando-a. Não
reclamo, não lhe digo nada.
– Porco. Animal.
Não pode ver comida.
***
Sorrio. Não
repare, ela sempre foi assim estourada. Veja como me ama: agora mesmo acabou de
derramar no meu prato um pouco de carne que sobrou. Ninguém quis.
– Como
“ninguém.” Então há mais alguém além de mim e ela?
Nossa! Como a
mesa está cheia! Filhos, genros, noras. E netinhos tão lindos!
– Vem cá para o
vô, vem.
– Vô não –
responde o menino, emburrado – Vô não – e me chuta a canela ferida, e dói, e
sinto que sangra, mas não digo nada, ninguém pode perceber, estragaria o
momento, não seria higiênico.
O sangue,
misturado ao pus da ferida, gruda na calça. É uma ferida antiga que não sara.
Já pensou, mostrasse o magoado sangrando e aí mesmo é que ela, com razão, me
chamaria de porco.
Sorrio.
– Ah, zanguei –
faço uma cara engraçada, de condoído, para o meu netinho.
– Macaco feio –
ele me chama.
Todos sorriem.
Veja como foi engraçado e como todos se acabam no riso.
– Posso pegar
outra coxa? – pergunto.
– Não! Já vou
tirar a mesa – e rápida raspa a tigela, os pratos, toda a comida da mesa.
No
corredorzinho, indo à cozinha, olho seu corpo de moça, cinturinha delgada,
nádegas volumosas, os cabelos compridos... Aspiro o rastro de alfazema que ela
deixa.
– Pare de
farejar a comida – ela diz, virando-se para mim, gritando, quase soltando,
saltando a dentadura da boca, quase caindo de tonta.
***
– Calma, minha
mãe. Calma – ouço a voz dela, num outro canto – E o senhor, meu pai, pare de
aborrecer minha mãe.
– Ora, minha
filha, não fiz nada – respondo, agora percebendo minha filha já de pé,
segurando a mãe para não deixá-la cair. Tão parecidas!
Num outro canto,
ouço cochichos, sibilos, cicios.
– Internar.
– Onde? Como?
– Mas quem vai
querer o traste?
– Agüentemos
mais um pouco. Logo emborca, embarca mesmo.
– Vaso ruim não
quebra, minha filha – diz alguém com voz cínica, bêbada e esganiçada.
– Não fale assim
dele. É meu pai.
Viro-me para
ele, o cretino do meu genro e...
– Imbecil!
Imbecil! Imbecil!
E três batidas
firmes na mesa.
Minha voz saiu
clara, mas todos insistem em dizer que, de tão bêbado, nem consigo falar. Deve
ser o maldito bolo crescendo na minha boca que me obstrui a voz. E, agora,
todos me condenam e chegam ao consenso de que é melhor internar.
– E rápido.
Amanhã mesmo. Amanhã mesmo, logo cedo.
Cochichos.
Sibilos. Cicios.
***
Daqui a pouco a
festa acaba e todos vão embora. Festa de que mesmo? Ah, Natal.
– É tarde. Vocês
dormem aqui. Arranja-se lugar.
– Eu tenho pena.
Não passa de um doente.
– Então,
interna-se. Não há outro remédio.
– Durmam no meu
quarto, que é grande. Já está dormindo. Bebeu demais...
– Quê? A festa
já acabou? – pergunto-me – Para aonde foram todos? E este silêncio... O maldito
relógio. Não consigo ver as horas. A catarata anuviou tudo.
– Meu bem. Meu
bem – digo alto, isto algum dia. Dúvidas. Pensamentos. Fantasmas que me
assustam – Xô! Xô! Quê? Internar? Levanto-me. Upa, upa, quase caio. Internar?
Ora, mas quem eles pensam que são? Separar, separar assim, cruelmente, duas
vidas que Deus... E o que Deus uniu o homem não separe. É um mandamento. Um
mandamento. Um... Para sempre juntos, para sempre.
***
Dirijo-me
ao quarto dela. O meu fica um pouco mais lá no fundo do corredor. Casa grande...
Faz anos que nos separamos. Mas estamos juntos. Repare bem: juntos. É um
paradoxo, eu sei, mas o teto ainda é o mesmo. Habitamos o mesmo espaço,
partilhamos tantas coisas de anos: o cheiro dela, a voz, o andar, antes lépido
e fagueiro, hoje arrastado. É esse som. É esse cheiro de alfazema. Os gritos e
os desarranjos. E foi principalmente o ronco que, tantas noites, passo a passo
pelo corredor, levou-me ao quarto dela, e lá, quietinho, no escuro, ouvia-o com
prazer. De certa forma, esses pequenos detalhes preenchem minha vida, sem os
quais não vivo. A faca. E o que Deus uniu, o homem não separe.
A
porta aberta.
–
Venha, venha por aqui. Escuro, mas o tato já sabe o caminho. Cuidado, o pé da
cama. Aqui. Aqui, um momento, paremos. Ouça:
–
Ronc! Ronc! Ronc!
– É o
ronco dela. Aqui os pés. Aqui a barriga. Aqui a cabeça. E aqui, mais embaixo, o
coração.
Ergo
a cabeça e as mãos para o céu escuro do quarto e desço de vez, uma, duas, três
vezes.
– Meu
amor! Meu amor! Meu amor!
***
O
escuro do quarto não me deixa ver o corpo. Sinto-o.
O
corpo meio curvado, feito criança no útero. Sangue. Criança no útero, abortada.
A boca travou.
–
Não, não faça birra. Birra é uma palavra do meu tempo, quer dizer “teimosia.”
Os
lábios ainda mornos, viçosos e carnudos... Ainda como antes. Sinto-os com os
meus. O gosto de sangue na boca. Beijo de sangue...
– Ela
apagou – digo por fim, com a certeza de quem desperta de um sonho tenebroso.
Acendo a luz e vejo dois corpos na cama. No mesmo instante, minha mulher abre a porta
do quarto, olha a cama e vê o corpo ensangüentado. Leva as mãos à boca e
arregala os olhos. Um grito de pavor ecoa por toda a casa.
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