Rio Barcelos

Rio Barcelos

sábado, 2 de junho de 2012

Sr. Centelhas



SR. CENTELHAS

I

O sono que tive não foi reparador, ao contrário, levantei-me bem cedo, quando não havia sol e as luzes dos postes ainda se encontravam acesas. Não pude compreender como dormira tanto, sim, pois desde às sete horas do dia anterior que eu dormia. No entanto, tinha o corpo quebrado, como se acabasse de chegar em casa de madrugada, voltando de uma festa, onde minhas energias tivessem se exaurido. Apesar do cansaço e do mal-estar, seria impossível deitar e dormir de novo. Portanto, decidido, fui ao banheiro e lavei apenas o rosto. Fazia frio, condição pouco estimulante para banho. Escovei os dentes e, enquanto fazia isso, olhava meu rosto num pequeno espelho quadrado de bordas alaranjadas, pendurado na parede, logo acima da pia. Vi um rosto sem expressão, marcado por olheiras escuras e um olhar apagado.  “Deus do céu! assustei-me. Mas que aparência horrível! Como pode alguém se apresentar com essa cara?” Fiquei uns dez minutos olhando aquela expressão apática, até que meus olhos mergulharam-se uns nos outros e, como se uma nuvem pairasse entre mim e o espelho, ofuscando tudo, subitamente não vi mais meu rosto.
Ouvi batidas na porta. Agora podia ver mais uma vez meu rosto no espelho, meu nariz, e meus olhos assombreados por profundas olheiras.
Enquanto atravessava a sala, olhei o relógio e me censurei por ainda não ter saído. E, mesmo sabendo ser toda minha a culpa por ainda estar ali no quarto, recriminei quem batia à porta com tanta insistência, cuja presença só me aborreceria ainda mais.
“Era só o que faltava! Sempre é assim. E agora não pode ser diferente.”
 Teria sido bom recompor-me, enfiar-me me algum estado de espírito que mostrasse realmente quem eu era. Mas nem pensei isso, tão rápido abri a porta e, quando vi, tinha em minha frente um raio de moça.
Com uma bandeja apoiada na mão esquerda e a direita erguida ainda em posição de bater, a moça não pôde controlar o impulso do murro que já dava na porta e, desajeitada, teve o corpo lançado à frente, esbarrando-o no meu. O murro passou-me zunindo na orelha esquerda. A bandeja, suspensa por uma reação automática dos músculos do braço, foi lançada para trás, o que provocou certo estardalhaço ao cair no chão.
Parados. Ficamos assim, assustados, um olhando a cara do outro.
“Que lindos e grandes olhos castanhos! Que boca! Que testa! E os cabelos! Ah, nada disso, testa pequena e bem feita; olhos realmente castanhos, mas não grandes, profundos, cansados, porém com intenso brilho e força, sob eles enormes olheiras enegrecidas, as quais contrastavam com a pele alva. Faltou o quê? Ah, a boca, não era carnuda, nem tampouco fina, regular, diria, não obstante rosada, de lábios firmes e, permita-me um deleite: frutinhas frescas. Os cabelos? Não sei, desalinhados...; nariz graciosamente arrebitado e, a respiração... bufos de égua em trote, bafejos expelidos de vulcão: um gozo...
E fala! (Que pena! Afastou-se um pouco de mim. percebe como eu estava um cretino?) vamos aos cumprimentos.
— Bom dia, senhor, vim trazer o café. Nádia. Meu nome é Nádia – e estendeu-me a pequena mão.
– Centelhas – apertei a sua com firmeza.
– Ai – gemeu, franzindo o cenho e o nariz, apertando os olhos e elevando um pouco o lábios superior.

Uma rosa vermelha,
com suas múltiplas reentrâncias, ensaiando,
no sofrer do nascimento,
o desabrochar.

(Agora era o lado poeta). Dois dentes destacavam-se bem no meio de outros que se seguiam perfilados.
“Que boca! Que fome de beijá-la!”
Contive-me, aspirando fundo.
Antes de falar outra coisa, limitei-me a olhar as horas.
— Queira me desculpar, senhor, devia ter vindo mais cedo, mas minha mãe, ela sofre de asma, passou muito mal essa noite, e a farmácia não abre antes das oito, especialmente nos dias de hoje abre ainda mais tarde, como se não fosse possível a alguém ficar acometido por algum mal justamente por hoje ser o dia que é. Tive que esperar abrir, comprar o remédio e voltar correndo em casa e medicar minha mãe, só aí então pude vir ao hotel e preparar o café dos hóspedes.
— Você já serviu os outros hóspedes? perguntei-lhe, muito sério.
— Oh, não, senhor, vim trazer primeiro o seu café. O senhor é novo por aqui e nem me conhece, não sabe que tenho uma mãe doente. Os outros hóspedes são todos conhecidos, eles vão entender se me atrasar. Acontece, às vezes, de eu nem precisar me explicar ou pedir desculpa pelo atraso, eles, muito cônscios que estão do estado de minha pobre mãezinha, simplesmente sorriem muito docilmente, como se me confortassem por ter uma vida difícil. Nessas horas me sinto feliz.
A moça me deixou desarmado. Usou um argumento estranho para me deslocar. “Diabos! Eu só queria recriminá-la, como faz um verdadeiro chefe.” Então, muito ligeiro e docilmente, perguntei-lhe se podia esperar um pouco, enquanto eu via uma coisa lá dentro. Na pressa com que tomei a decisão, bati a porta na sua cara e, rápido, corri até ao banheiro e parei em frente ao espelho. Tentei lembrar uma cara que fiz um dia, quando eu nem notei que Vera, minha ex-namorada, me olhava. Só depois que eu a vi, foi que ela disse:
—  Você estava com uma cara tão boa.
— Boa como? perguntei-lhe.
— Ah! Você parecia estar livre dos problemas do mundo.
Depois que Vera me disse isso, assim que pude corri ao espelho e tentei decorar aquela cara. Julguei que fosse uma cara simpática. Mas, dias depois, como eu insistisse em usá-la continuamente, a cara virou máscara, uma caricatura de mim. E, o efeito desastroso de usar uma máscara foi, um dia, Vera vir muito dolorosamente me dizer das suas dores de cólica e eu, inocente, mostrar-lhe uma cara simpática.
—   Você parece um bobo com essa cara, disse ela na sua dor.
A partir daí fiquei incerto se devia ou não usar aquela cara simpática. E não foi só isso, de certa forma a máscara grudou na minha memória, e de vez em quando ela vinha, insistente, querendo cobrir minha cara natural, que é a triste. Passei a ter outra personalidade, uma intrusa, uma indesejável.
E agora, ali no quarto do hotel, tentava lembrar com a máxima fidelidade aquela cara simpática, mesmo com a forte suspeita de que, tão logo eu a usasse, sobreviria a esse ato um grande e avassalador mal-estar. Peguei-a e vesti-a. Voltei correndo à sala e abri a porta. A moça não estava mais lá.
Aproximei-me da amurada do corredor e ouvi uma voz de homem gritando com alguém, lá embaixo. Desci para ver o que estava acontecendo.
— É mesmo impossível se tolerar coisas desse tipo, gritava senhor Moreiras, o proprietário do hotel, com a moça do café. E continuou: não se pode dar um dedo, a mão, e logo nos tomam o braço, o corpo, tudo, tudo; confundem tudo, liberdade com permissividade, cordialidade com amizade. E agora, e agora, mocinha, é capaz de ver a situação real? Olhe para mim. O que vê? Um liberal? Um amigo? Um cordial? Vamos, diga, o que vê? Ah, não diz nada! Pois bem, quem cala consente. E é justamente aí que está a burrice, poderia responder: “não, senhor, a melhor resposta é aquela que não se dá.” Mas fica calada, sem argumento, nem ao menos pôde me responder: “não, senhor, a melhor resposta é aquela que não se dá,” Hum.
—  Mas foi justamente o que fiz, senhor? disse a mocinha, muito recolhida em si.
— Quê?! Mas como ousa desafiar-me? Ah! logo vi, pertence àqueles tipos dissimulados! Espera que afrouxemos o laço e nos dá o bote.
Aproximei-me dos dois. Senhor Moreiras sorriu. A moça do café procurou recompor-se rápido e também sorriu. Fiquei tão envolvido com os gritos de senhor Moreiras que esqueci a máscara simpática. Portava agora tão somente a cara da alma.
– Vê, senhor... senhor..., dirigia-se ele a mim.
— Centelhas.
— Veja bem, senhor Centelhas, bonito nome, esta é Nádia, a moça do café. Repare bem, repare bem, se não o acordamos mais cedo é porque hoje é domingo; dorme-se até mais tarde aos domingos. O senhor dormiu bem? Ah, vê-se que dormiu, olhe só que cara esperta! Um passeio pela baía vai lhe fazer muito bem. Os manguezais são lindos, dizem, eu não acho, mas já que dizem, são realmente muito lindos. Tenho um barco a motor, eu mesmo posso levá-lo, seria um prazer. O senhor tem fome? Quer provar um pedaço de requeijão? Vou pegar.
O homem se apressou em ir pegar o requeijão.
A sós com Nádia, perguntei-lhe se aquele dia era realmente domingo. Ela respondeu:
— Oh, sim, hoje é realmente domingo. Poucos estabelecimentos estão abertos. Por isso esse silêncio. Não há o que se fazer domingo neste lugar. O senhor gostaria de passear pela baía?
— Oh, não, respondi, imitando-a na fala e no gesto expressivo que colocava no rosto quando falava assim.
— Ah, o senhor está me imitando, reclamou.
Nádia era de uma docilidade incrível. Via-a como uma filha amada. Ao refletir em mim tal pensamento, fui tocado por tamanha felicidade que me senti incapaz de sentir ódio. Sorri para ela. E o olhar que ela me retribuiu tocou tão fundo meu coração que quase deixei cair uma lágrima.

     Oh, não queiram os senhores imaginar o que aconteceu logo mais, à noite!...


II

Fechando a porta e virando-me para o interior do quarto, não estranhei a escuridão. Abri a janela, que, como tanto me disseram a boa Nádia e senhor Moreiras, dava para o rio Acarai.
Abri-a e vi as luzes dos postes acesas. Já era noite. Não me assustei com o avançado da hora.  Acostumara-me a sofrer esses lapsos de tempo. Às vezes as lacunas eram breves, uma hora, um minuto até, constantemente um segundo, porém só muito raramente se alargavam tanto. De certa forma isso faz parte do processo de ruminação ao qual me submeto: enquanto rumino, o lado de fora se me abstrai, dele perco o sentido.
    Para que tudo isso? Para quê? — pergunte-me, leitor.
Uma outra pergunta faço agora: serei mesmo eu, por vontade própria, que me submeto a essa digestão mental? A resposta é: não sei. Uma outra vez, quando dispuser de tempo, entregar-me-ei a esta análise. Mas, por ora, deixe-me lavar a alma (é um pensamento: sempre que sinto a alma suja, tomo demorados banhos; saio melhor de sob o chuveiro, a limpeza do corpo de fora reflete no de dentro) portanto, o que me faltava naquele momento era um banho. Ir-me-ia a ele e esquecer-me-ia do rio, de Nádia, de Vera e...
Segurando ambos os lados do meu pescoço com as mãos, enfiava-me Vera sua língua até a garganta.  Assim a senti, porém ela, depois, disse daquele modo não fora. Muito pelo contrário, apenas percorria com a sua língua o céu e toda a base de minha boca. Mais, enquanto o fazia, também ela, e não só eu, dava um pouco de si, pois espargia, como se fosse uma passaroca alimentando seu filhote ao bico, boa quantidade de saliva em minha boca, e, mais, sentira, durante bom tempo fiquei a sugá-la, como se a quisesse secar. Portanto não havia sido ela e sim eu quem me excedera naquele beijo. Bem quis ela fazer-me acreditar nisso. Mas, fosse como fosse, já era tarde, eu a tinha magoado, não só por jogá-la de encontro à prateleira do outro lado, na parede, também sim por ter-me mostrado espiritualmente grosso, o que ela não tolerava. Fosse violento por causas externas, porém com as causas do coração... ah, meu bom amigo, disse-me ela, com estas há de ser o homem e também a mulher delicados. Excessivamente delicados. E saiu batendo a porta, um gesto, digamos, extremamente grosso... no entanto perdoável, não só por ser conseqüência de um erro meu, mas sim por ser, de certa forma, uma grosseria alheia aos nossos sentimentos. Ficasse a situação por esse patamar, tudo ia bem. Mas, como agravante da grosseria, estávamos em casa de seus pais. E eles, pai e irmão de Vera, diferentes da porta que não tem ouvidos, pois quem os têm são as paredes, rápidos do quarto acudiram ao estatelar do corpo da filha na prateleira, e fizeram-se presentes na sala.
— Ora, mas tudo por causa de um beijo mal dado! Ou seria um beijo maldado? — pergunte-me.
Fique sem saber a resposta. E, se quiser, fique remoendo, remoendo, remoendo...
Que importância tem esse questionamento, se já estavam as feras com suas garras enfiadas no meu sofrido pescoço?
— Fale! Fale, homem mau! O que fez com minha filha? — disse o pai de um lado.
— Ah! Hum! Ah! Hum! Hummm! — urrou o irmão do outro, um adolescente: perdoe-lhe a irascibilidade. Mas o fato é que ambos cravavam suas unhas na minha jugular, o que me deixou sufocado.
    Fale! Vamos, fale, desgraçado — repetia o pai.
Bem gostaria de falar-lhes. Mas, como podia? Apertavam-me tanto o pescoço!
    Parem! Parem! — irrompeu Vera, gritando, na sala.
Imediatamente obedeceram. Largaram-me, recompuseram-se, sentaram-se no sofá e alargaram os olhos e os ouvidos, ansiosos por ver e ouvir o que tínhamos a dizer. Foi ela quem disse:
— Não briguem vocês por uma coisa tola! Senhor Centelhas não me fez nenhum mal, ao contrário, é ele um homem bom. Quer-me bem, é verdade, mas... descontrolou-se, foi isso, faltou-lhe o ar da delicadeza e...
— O ar da delicadeza?! — perguntou desconfiado o pai — Diga-me cá, filhinha, mas que raio de eufemismo é esse que nunca ouvi. A que diabo de grosseria ele suaviza?
— Ora, meu pai — começou ela, ganhando tempo — apenas quero dizer que... bem, faltar o ar da delicadeza é a mesma coisa que... pensando bem... é abrandar a intensidade de um beijo mal dado. Pronto, é isso.
Eu, jogado num canto, há tempo pedia:
    Água! Água, por favor — mas quem me ouvia?
— Água não há! Vá buscar em Minas! Minas não há! Ora, contenha-se! Então te sufoca um beijo e não água? — disse Vera, irritada.
— O quê? O que disse, minha flor? — perguntou curioso o pai, o irmão já distante, pensava em tal e tal coisa — Então quer dizer — continuou o pai — que se sufocou este traste com um beijo? Vou rir, ora se vou — E escancarou a boca para que nela se instaurasse um sorriso animal.
— Animal! Animal! Isto é o que és — disse gritando ao pai de minha noiva.
Para quê? Ai, malditas palavras foram aquelas! Todos na casa silenciaram de repente, o pai, minha gatinha de olhos verdes, e até o irmão, um grandessíssimo distraído, todos perderam a boca, só a porta da rua gemeu para que uma senhora gorda entrasse. Eis que porta fala!
— Acabei-me em compras — disse ela; não a porta, a mãe de Vera.
O encorpado da voz e a obesidade do corpo da mulher foram chupados. Não só eles, mas também as paredes, os móveis, o tempo e todo o espaço em redor. Realmente a porta rangeu e alguém entrou. Naquele momento estava eu à janela da pousada, no meu quarto, perdido a olhar o rio. Quanto tempo fiquei naquela abstração, remoendo uma cena vivida com Vera? Não sei. E, se não fosse o gemido da porta cortando esse elo, decerto a cena continuaria por mais horas e horas. Virei-me em direção ao limiar e ainda pude ouvir a moça dizendo: (a voz chegou-me misturada à da mãe de Vera, e eu ainda sob o efeito daquele momento).
— Trouxe-lhe nova refeição, senhor Centelhas — disse Nádia em pé, parada no vão da porta.
    Gorda! Gorda! Isto é o que és! — gritei-lhe, irado.
Assustou-se a mocinha, e com razão.
    Gorda, eu?!
Mais uma vez aqueles olhos... Podia agora vê-la melhor, em outro plano e... ora, constatei atônito: Nádia não passava de uma criança. Quantos anos? Doze, treze, se muito, quinze. Ao pé da escada não a vira pequena, talvez por ter-se portado como felina. Escondera-lhe o real tamanho a valentia. Mas dessa vez, ali em minha frente, plantada de pé, muito bonitinha e ereta dentro de um traje branco que talvez lhe tenha forçado a vestir senhor Moreiras, e portando-se como vítima de um mundo cruel, oh, senhor, como a quis tomá-la ao colo, beija-la tanto e pô-la a dormir! Velaria o seu sono como se eu fosse um deus, um pai protetor...
    Gorda, eu?!
— Oh, não! Não! Perdoe-me a estupidez! Encontrava-me perdido em... Ora, mas veja que minhas palavras foram mesmo muito estúpidas, és tão magrinha...
    Magrinha, eu?!
Logo percebi o quanto difícil é agradar as mulheres.
Furibunda, de um coice Nádia fechou a porta. E entrou no quarto.
— É inacreditável como as pessoas são cegas! — disse ela, enquanto caminhava até a mesinha de centro. Depositou a bandeja sobre esta, erigiu-se sobre si e muito ereta falou: —  Extremistas! Assim são os adolescentes. Extremistas! — “Ora, meu Deus” pensei, “com quem será que se rebela meu pobre bebê? Decerto um namorado, e, não tendo com quem se abrir, vem, assim, introduzindo dessa forma o assunto, e comigo! Obrigado, Senhor, por esta graça. Eis a oportunidade de orienta-la, não com a extremada firmeza dos pais, mas assim assim uma meio moderada conversa de amigo, porém nunca frouxa demais. Eis que vou orientá-la”.
— Filhinha... — nem bem abri o bico, rápida interpelou-me:
— É inadmissível! Inadmissível! — falava com os lábios cerrados e os olhos muito acesos, fula de raiva — Quem pensa que és, para assim, logo de chofre, emitir opinião destorcida a meu respeito?
Só aí então foi que liguei o pronome ao verbo e vi que se referia a mim.
Encarava-me direto nos olhos. Sempre fui tímido, baixei os meus. Para quê? Para quê? Tinha de ser firme e encara-la até obriga-la a baixar os seus, dobrá-la, remoê-la, remoê-la... depois.
— Há, há, há, há, há!
Ria-se de mim, a cretina. Com certeza adivinhou minha fraqueza em tempo de criança, quando, muito facilmente, qualquer garotinha fitando-me bem no fundo dos olhos me fazia baixar os meus. Naquele tempo era só uma brincadeira e, ainda assim, causava-me os maiores estragos.  Mas não daria a Nádia o gostinho da vitória, não cederia um dedo, nenhuma concessão.
Esta bravata interior eu erguia, e, enquanto a elevava além do chão, subi tanto em meus propósitos de vencê-la que, não tendo mais onde pôr os pés, inevitavelmente as pernas fraquejaram e — impossível não dobrá-las — junto com elas foram os olhos lamber o chão, e toda a cara, mas, se havia ainda um pouco de hombridade em mim — decerto que há em todos os fracotes — socorreu-me ela. Não importa o brilho que ela tenha, umas socorrem seus donos com altivez, com elegância e classe; outras... um ratinho, mesmo um ratinho traz dentro de si um algo de nobre... saber recuar, disfarçar, distrair e meter a hombridade pelo buraco, eis aí a mínima condição humana.   Por isso pensei em me desculpar, dizer-lhe que era mesmo muito bem feitinha de corpo e mesmo muito difícil saber se magra ou gorda.  Porém não o fiz, o que me pareceu ainda pior.
            Nádia, cansada de me tripudiar, sentou-se em frente à mesinha de centro e começou a servir o café.
            Bem, ponderei, já é alguma coisa colocar o meu café, de certa forma dobra-se, está sendo servil.
Esperei que terminasse de servir e se retirasse, mas, quem disse! Com a mais descarada elegância do mundo pôs-se a emitir risinhos oculares que, em tudo, já evidenciava o deboche e a superioridade.
Ato contínuo, levou a xícara aos lábios e ficou a me olhar por sob os olhos, como se espreitasse uma reação de minha parte, como se previsse, a cínica, que a qualquer momento eu chegaria ao meu limite e explodiria. Hi, hi, hi, hi, hi, ri-me por dentro, este gostinho eu não lhe daria. De fato, não dei. O que fiz? Dei-lhe as costas.
Feito um rato chiei e enfiei a cara no buraco. Nenhuma outra foi a resposta. Depois remastiguei esse meu comportamento. Havia, não sei de que modo, uma certa ligação entre o roedor e o ruminante, como se fossem eles parentes bem próximos, como se o ato de ruminar e o de roer fossem um só.
Da janela olhei para fora. O ar fresco e na rua poucas pessoas. A ponte que se encompridava indo de encontro ao rio, levava em suas bordas duas fileiras de postes com lâmpadas que clareavam muito mal. O reflexo da luz bronzeada brilhava na água escura do Acaraí. Na extremidade da ponte um homem tomava ar, ou talvez só pensasse, gastasse tempo, poluísse a natureza... virou-se. Ora, veja, senhor Moreiras! Então se dava ele a esses passatempos... Seria também um ruminante? Logo vi que não, pois bastou me ver à janela e bateu em retirada. Um verdadeiro ruminante não teria essa reação. Um homem, e ainda mais à noite, sim, pois a noite pertence mais aos sentidos do que à razão, a noite com suas penumbras, seus semitons, todo a sua característica barroca, à noite o homem viaja, não para fora, mas para dentro de si, ainda mais se a noite for fresca e se sob ela houver uma ponte e um rio para nele se desaguar... Um verdadeiro ruminante não veria um outro à janela, nem ninguém, nem nada. Apenas desaguaria, desaguaria...
Eu sei essas coisas porque sou um homem muito inteligente; outros nem se dão conta de que são ruminantes, (estes se assemelham ao boi e ao matadouro tanto se lhes faz ir ou não).
— Água! Água, por favor!
— Água não há! Vá buscar em Minas! Minas não há! Ora, contenha-se! Então te sufoca um beijo e não água? — disse Vera, irritada.
Fiquei muito tempo plantado à janela, remastigava um episódio de minha vida com Vera. Depois, após ouvir o apito de um barco na ponte, pisquei rápido e, hi, hi, o rato ressurgiu, lembrando-me de que Nádia tomava o meu café, abancada no meu sofá, em minha sala.
De uma virada repentina e violenta, mandei o rato aos infernos. Ah, como é bom sentir-se valente! Senhor de si! Dono da situação! Mesmo que seja por um segundo...
Bem se vê o tempo em que estive fora! Voltei à janela e constatei que na rua não se via um pé de gente. A ponte deserta. Silenciosa. Ao longe, o som de buzina de carro. E, de novo, o silêncio. Dentro do quarto, o ressonar de Nádia.

segunda-feira, 14 de maio de 2012


Não é sempre, mas às vezes levo sustos enormes. É como um rio que a gente navega, navega, mergulha nele, afoga-se nele, e nem se dá conta de que o rio é o curso de sua vida. Tenho essa impressão quando concluo algum texto, às vezes. O engraçado é que há um disfarce medonho, um terreno e tempo distantes, personagens nunca antes vistas ou sabidas, como se tudo isso pertencesse ao alheio, ao que não nos diz respeito. E o susto que tomo é este: saber que nada do que escrevo é alheio, o susto é saber que tudo o que escrevo diz respeito a mim, mesmo que distante, estranho, escuro, inconcebível, metamorfoseado em dragão ou em sereia, eu sou a fonte, eu sou o rio que deságua, para o abismo, para o fim, para o nada.

Capítulo de algo maior, ou menor. Sei lá.

***
A luz do sol apareceu vermelha, rasgando o céu, lá por trás da península de Maraú. A ilha da Gerumana era uma sombra se elevando sobre o mar do canal. O ar ainda frio. Logo o sol desceria queimando tudo.
Teófilo ouviu um estrondo, vindo lá das bandas da Ponta de Caieira. Imaginou que fosse Raimundo Reis matando os peixes.
“Um desperdício. Uma maldade com a natureza. O desgraçado ainda vai se dar mal. O certo é pescar de linha, de rede de arrasto; o certo é usar a malha certa na rede, para não pegar os peixes pequeninos, que não servem para comer. É certo usar bomba? Milhares de ovas perdidas. O homem é burro. Raimundo Reis também é meu amigo mas é burro. Que mal fiz a Deus para ter um amigo burro?
Acendeu outro cigarro e tomou rumo contrário ao som da explosão. Não queria ouvir os estrondos. Foi para longe, para um lugar onde pudesse apoitar sua canoa, preparar sua isca e esperar que o peixe graúdo viesse morder o seu anzol.
“É diferente. É muito diferente. Pesca-se o necessário; não há matança desordenada. Diabo! O fim não justifica o meio.”
Imaginou Raimundo Reis catando as tainhas da superfície. O samburá do infeliz devia estar entornando peixe, mas não lhe era suficiente, o pescador sabia que lá no fundo estavam as tainhas gordas, por isso mergulharia e iria buscá-las.
O sol se escondeu atrás de grossas nuvens, lá onde a península descamba para o oceano. Nuvens negras, volumosas. O mar do Canal escureceu e a paisagem mudou. Desenhou-se um quadro de chuva. Teófilo percebeu que tudo ficou quieto. Julgou que fosse a explosão da bomba a causa de tanto silêncio. Deve ter assustado as garças e os savacus. Um bando de periquitos e todo o estardalhaço que fizeram, quando cruzaram o Canal, se ouvia agora longe, quase como uma ilusão.
Teófilo apurou o ouvido, na tentativa de ouvir a voz de algum outro pescador. Por aquelas bandas era comum um pedaço de voz vir bater nos ouvidos. O vento trazia e levava, num bater de asas.
“O tempo virou! Nenhum som. Nada. Ora, o mar está para peixe.”
Lançou a linha ao mar e esperou.
“Que mais se pode fazer nessa vida?”
***

Fragmento de "uma coisa" que estou escrevendo; tomara que vingue.
***

Eugênia, depois que percebeu que o marido havia saído, levantou-se, pois não estava com sono. Pegou o candeeiro pendurado em uma viga da casa e o colocou sobre a mesa, assim poderia ler o Almanaque Capivarol, exemplar que lhe dera seu João Celi, quando ela fora à vila comprar remédio para cólica. Era a única coisa que tinha para ler naquela casa. Havia uns casos e piadas engraçados na revista. Já os lera todos, mesmo assim sentia certo prazer em voltar à leitura, como se fosse a primeira vez. Sabia tudo de cor, mas havia um engenho na leitora que fazia com que a cada nova leitura brotasse da história algo novo. Ou como se a pessoa que estava lendo já fosse outra. Assim Eugênia se pôs a folhear a revistinha. E parou num caso conhecido. Ao terminar a leitura, estava emocionada, como se todos os problemas do seu mundo real tivessem deixado de existir. Naquele momento, só ela e a leitura. Desviou os olhos do almanaque e olhou a parede à sua frente. Agora uma outra história, também já vivida e repetida por Eugênia, saltou dos seus olhos e foi se desenrolar na parede. Ela era a espectadora. A luz amarela e trêmula do candeeiro projetando e dando movimento às imagens na parede. Era uma história. E era uma história triste. A história de um amor proibido. O filme parou de repente. Eugênia apagou o candeeiro com um sopro forte e as imagens evadiram-se. O cenário do mundo escureceu. Bobinha! A história não para nunca. Ela é filha do tempo. Ela continua, mesmo no silêncio, mesmo na escuridão...
***

domingo, 1 de abril de 2012

Anjinho


            A igreja agora é bonita. Limpa, por fora. Dá gosto olhá-la de longe, destacando-se na Praça da Matriz. De perto, então, apura-se o olfato e ainda se sente o cheiro da tinta fresca entrando pelas narinas e pelos olhos, enebriando, deixando o povo tonto. Toda renovada, ela que é tão antiga. Suas torres, braços incansáveis, erguem-se aos céus, clamando a Deus os inúmeros pedidos. Maria Dasdolores de Vulpian, rogou a Nossa Senhora que curasse seu filho Anjinho do puxamento que o maltratava desde que nasceu. Até mesmo ela, que nunca adentrara aquele sagrado santuário, recebeu uma dose do santo remédio, o restante da cura viria por merecimento. O menino, rosado nas aparências, pareceu-lhe sarado. Acendeu duas velas pequenas e ficaram acertadas, ela e a santa. O asmático, alheio ao acerto de comadres, continuou fazendo suas necessidades no terreno da igreja, lá nos fundos, ao lado da sacristia, onde dormia, num esquife, o Nosso Senhor Morto. Arriava o calção, agachava-se e deixava no terreno a sua obra sagrada. E isso era sempre de tardinha, antes de seu João Grande se dirigir à usina e botar o gerador para funcionar. A figura enorme do homem, figura que faz jus à alcunha, aterrorizava o menino. Por isso, sempre que Anjinho suspeitava a aparição de seu João Grande, arrancava folhinha de mato e limpava-se às carreiras. E às carreiras saía do beco do motor, gritando:
            - A vara! A vara!
            Nesse momento, ele já não tinha mais medo de seu João Grande. Agora, o que sentia, era emoção. No canto da sala de sua casa, lá estava a vara comprida e flexível de araticum. Pegava-a com mãos nervosas e saía correndo. Postava-se no oitão da igreja e, com a vara à frente, aguardava. Logo chegavam os outros meninos, uns com varas, outros com pedras.
            Vulpian, que então fumava encostado à porta de seu bar, disse:
            - Olhe, Dasdolores, lá estão os malvados.
            Mal Vulpian acabou de falar e de dentro do bar, que também era sua casa, saiu seu filho Anjinho com uma vara comprida.
            - Epa! Epa! Mocinho! Onde pensa que vai?
            - O menino parou, manso. A feição, de anjo remelento. A respiração e os olhos, fiapos de nuvem. Os cabelos, louros, escorridos. As faces, sujas. E as mãos, determinadas, segurando a vara. Continuou parado. Não era o menino que estava parado. Tudo estava parado fazia tempo naquele lugar. Desde a fundação da Aldeia, que chamaram de Aldeia da Purificação, com a chegada dos jesuítas da Companhia de Jesus, no ano de 1654, com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os santos encarnados vieram, plantaram coisas e se foram. Deixaram em seu lugar imagens de barro, sacralíssimas. Deixaram a construção imponente, plantada no meio da Praça da Matriz. Em redor, casinhas penitentes, ajoelhadas, diante da grande Casa.
            - Oxe! O que foi isso?
            Uma imagem nos passou de repente diante dos olhos. Chegou-nos como se fosse a lembrança adormecida e fresca do furúnculo que o menino acabou de espremer.
            - Pare de mexer no furunco, menino; vai magoar a ferida, gritou-lhe o pai. Olhe só para isso, Dasdolores, o carnegão de fora.
            Ora! Mas o menino nem percebeu que mexia na ferida. Olhou o dedo sujo de sangue pustulento e de outras imundícies e rápido limpou a sujeira no calção. Saiu correndo, gritando:
            - A vara! A vara!
            - Diabo de menino! resmungou o pai.
            - E não pode se cansar, Vulpian, disse a mãe. Mas é menino, e menino precisa de brincar. O coitadinho... Deus tenha piedade... Meu anjinho...
            Juntou-se a outros meninos, que aguardavam seu João Grande ligar o motor.  Essa expectativa só aumentava a emoção. As mãos envolviam as varas de araticum com força. As pedras sonhavam um destino certeiro. Jajá de tio Wilson disse:
            - Vou acertar o Diabo em cheio. Vamos seu João, liga logo esse bicho, gritava de longe da usina.
            Até Zezinho de finada Linda de Epitácio, que só andava doente e nem aguentava dar uma carreira, nessa hora arrotava:
            - Vou acertar dois de vez.
            Só Anjinho não dizia nada. Mas todos podiam ver nos seus olhos a bravura reluzir. O motivo vinha de longa data, funcionava como rito de passagem dos meninos, consagração a Deus e renúncia ao... Deus me livre, pois não digo esse nome. É que também eu fui menino de lá. Os pais nem reclamavam.
            - É bom que se mate esses bichos; filhos do Diabo – os homens crescidos tinham coragem de dizer.
            Não demorou muito e logo se ouviu o ronco da máquina. As luzes dos postes de madeira se acenderam. Mas ninguém viu a luz, nem ouviu a Ave Maria que começou a tocar no rádio, no bar de Olica. Nenhum dos meninos fez o sinal da cruz. Anjinho, preparado, disse:
            - As varas! Aí vêm eles!
            E logo a legião de diabinhos se atirou rua afora e ganhou o beco da igreja.  Formavam uma nuvem preta, assombrosa, davam pequenos gritinhos e batiam as asas desordenadas. Chegaram rápidos, num sobrevoo rente à cabeça dos meninos, e logo sumiram. As varas e pedras também mexeram-se rápidas.  Umas cortaram o ar ligeiro e nada encontraram; já outras, certeiras, atingiram o alvo em cheio.
            Cinco morcegos no chão. Uns parados; outros ainda se debatendo, emitindo  gritinhos estridentes.
            Anjinho chegou perto de um e disse:
            - Cara de rato. Rato, vira morcego! Rato vira morcego e foge tritritri avoando. Jajá, morcego se desvira em rato?
            Jajá, que tinha resposta para tudo, respondeu, enraivecido:
            - Ele vai virar é diabo morto!
            Levantou o pé e desceu-o com toda a força sobre a cabeça do bichinho. Depois ficou girando o pé, esfregando a cara do coitado no barro da rua.
            - É assim que eu me vingo, filho de Satanás!
            Anjinho achou o que Jajá fez muito errado. Deixou o morcego imprestável . Pois morcego morto não serve para nada. Por isso ele olhou rápido para os outros que estavam espalhados pelo chão. Viu um se arrastando, tentando fugir. Rápido, gritou:
            - Não mate, Jajá! Esse é meu.
            - Oxe, e vou lá matar! Já tive o meu; quero é ver se morcego se desvira em rato. É todo seu. Pronto, já vi que não desvira. Pode matar.
            - Vou matar depressa não, respondeu Anjinho, olhos fixos no bicho.
            - Ora! E vai matar como?
            O menino não respondeu. Mas tudo já estava preparado: o tronco da bananeira no fundo do quintal de sua casa, as brochas que arrancou de uma tábua velha, e agora o morcego, que era o que estava faltando.
            Jajá, não tendo mais o que fazer, provocou:
            - Se desvira em rato nada!
            Então Anjinho, que saiu com essa novidade, explicou:
            - Desvira, sim; ele, deve, estar, é, com, vergonha. Fiiuuu. Ou, então, ainda, é, novo; tem que, ser, morcego, velho... Fiiiuuu. Largata, não, vira, bor-bor-bor-bo-leta? E...
            - Mas borboleta não desvira em lagarta, desvira, miadinho de gato? E não é largata, é “lagarta”.
            E Jajá deu uma carreira rua abaixo, à procura de praticar maldade com outros bichos indefesos.
            Anjinho pegou o morcego, que ainda se debatia, e levou-o para sua casa.
            Entrou com o bicho meio escondido, para que seus pais não vissem. Sabia que iriam reclamar. Pais, quando grandes, reclamam de tudo. O menininho nem pode levar um bicho para casa. Tem que ser assim, escondido. Será que pais adultos pensam que  meninos são bestas? Tadinhos...
            O menino entrou foi na arte natural da sonsidão. No fundo do quintal colocou o bicho sobre uma folha grande de cacaueiro. Olhou o tronco da bananeira. Lisinho. Pegou as brochas, que deixara escondidas no porão de um de seus barquinhos de cortiça, e pronto.
            Foi difícil segurar a asa direita e a brocha ao mesmo tempo em que segurava a asa esquerda. Mas conseguiu enfiar a primeira brocha. A segunda foi mais fácil.
            - Pronto. Aí está você, pássaro do diabo, Anjinho praguejou.
            Ficou parado em frente ao morcego. De asas abertas, pregado no tronco da bananeira, o bichinho imóvel, a cabeça ainda firme, querendo reagir, como se pretendesse soltar-se do resto do corpo. Deu um gritinho de sofrimento. O menino se arrepiou. É que a escuridão descera, e o menino, tão entretido com o morcego, nem percebera. Mas a escuridão agora vem lhe dizer que mete medo. Que o quintal, ali pelos cantos, sob as folhas, e logo mais por todos os escuros, o ambiente agora é dela. Que ele deve entrar em casa, sair do quintal correndo, antes que ela o prenda nas suas asas negras.
            O menino olhou para trás, rápido, como se tivesse levado uma cutucada de alguém, ou de alguma coisa. Mas nada viu, ou viu apenas o grande vulto que crescia por todos os cantos, e em redor de si.
            Medroso, deu uma carreira e entrou em casa.
            Maria Dasdolores e Vulpian mais outros filhos, que não interessa nominar nem quantificar,  já estavam à mesa. Anjinho entrou correndo e foi se sentando no seu tamborete. A mãe foi até o fogão de lenha, pegou a chaleira que estava sobre a trempe e derramou o café na caneca do menino. Deu-lhe um bolachão e ele começou a comer. Depois que Anjinho terminou de tomar o café, ficou na mesa ouvindo a conversa dos pais. Mas não acompanhava nada do que eles diziam. Apenas algumas palavras febris lhe chegavam desmaiadas.
            “Puxamento. Coitadinho. Na venda de seu... Piorando. Xarope de... Caro. Come, meu filho, disse a mãe, pasando a mão na cabeça loura do filho. Vai ficar bom, disse o pai, agarrando-se no invisível.”
O pensamento de Anjinho estava mais voltado para o morcego pregado na bananeira. Pensou que talvez ele já tivesse morrido. Ou se desvirado em rato. Concluiu que, se ele tivesse se desvirado, já não estava mais lá. Se ao menos ele pudesse vê-lo. Mas o quintal tão escuro! Espiou pela janela, mas não viu nada. Até colocou o fifó na direção da touceira de bananeiras, viu um vulto atravessar o clarão do fifó e se embrenhar por trás das folhas, fechou a janela rápido e foi dormir.
            Logo toda a casa entraria em sono profundo. O dia começava bem cedinho, com o céu ainda escuro, mas enfeitado de estrelas. A mãe cuidava de tudo. Acendia o fogão para fazer o café. Acordava os meninos para irem à escola. Depois que os despachava, intercalava os afazeres domésticos com ajudar o marido no bar. Os meninos chegavam da escola, almoçavam e iam brincar, ou então tomavam banho no rio, ou judiavam os catendes, ou matavam murunhanha, ou não faziam nada, apenas paravam alerdados, espiando o tempo passar se arrastando, na rua. Os dias eram longos.
            A mãe acendeu a lamparina no quarto dos meninos. Deixou a chama bem baixinha, para economizar gás. Rezou o Pai Nosso com eles, deu um beijo em cada um e saiu.
            Logo todos dormiam. Menos Anjinho, que não conseguia desgrudar o pensamento do morcego pregado no tronco da bananeira. Os irmãos todos enrolados em cobertores franciscanos grossos e macios. O silêncio doía nos ouvidos. Um som ensurdecedor que vinha não se sabe de onde. Se ao menos ele pudesse dormir logo. Mas não, tem de ficar pensando no bicho pregado na cruz. Bicho pregado na cruz? Nessa hora o menino avistou o Nosso Senhor pregado na cruz. Ele bem à sua frente, na parede do quarto. A luz da lamparina sem alumiar bem. Luz confusa. Luz que mistura o claro com o escuro, numa dança enebriante. As horas entontecidas, deixando a noção do tempo lassa. É de deixar a vista maluca. Umas visões. O Nosso Senhor pregado na cruz  se mexendo. Talvez ele ainda esteja vivo, e sofrendo. Isso é maldade. O menino já arrependido, pede perdão a Nosso Senhor, pois não devia ter feito aquela ruindade.  Que animal é mamífero e voa? Ouve a professora perguntar, na escola. Ninguém soube responder. Então ela disse que galinha era animal ovíparo; e o cabrito, herbívoro. E o morcego? O morcego é o quê? ela perguntou. Anjinho se adiantou e respondeu:
            - Sanguífero, ele respondeu. Sanguífero! Sanguífero! ele grita bem alto agora, mas o som morre-lhe no peito asmático.
             A professora não achou graça. Disse que a resposta estava errada. Botou o menino de castigo. Agora ele já sabe que morcego é mamífero, e voa. Mas que castigo! Que mal ele fez para ficar pregado. Ele tem a cabeça pendida para o lado. Ele já deve estar mesmo morto. Mas se está se mexendo? Morto é morto. Morto não é vivo. Mesmo assim o que é morto dá medo. Ele é tão magro. É de hoje que Ele morreu... Esse era homem e virou anjo. E o anjo se desvirou em homem no terceiro dia. E o outro, vai se desvirar em quê? Quando?
            Veio a noite alta e o menino lá, acordado. Até fez força para dormir. Mas visões assustadoras afugentaram-lhe o sono. Começou a sentir medo. Ora, mas medo de quê? Só por que matou um bichinho maldito? Estaria ele com medo de ser castigado por esse Deus pregado na cruz? Ele nem está olhando. Mas o menino de vez em quando levanta um pouco a beira do cobertor e gruda os olhos no Jesus crucificado. Ele tem uma luz em seu redor. É a luz da lamparina que ilumina mal o quarto. Antes estivesse tudo escuro, assim não viria o olho de Deus, que tudo vê, mesmo sem estar olhando. Ou seria coisa da cabeça da criança? Crianças têm esses medos aprendidos, que apreendem-nas, prendem-nas na pior prisão, aquela que é construída dentro de cada um. Para onde quer que se vá, a prisão interior o acompanha, não há liberdade do lado de fora. Meus Deus, não há liberdade!
Disseram-lhe que Deus castiga menino mau. E ele agora é um menino muito mau. Quem mandou matar o morcego? E Jajá? Estaria ele acordado nesse momento, com medo de ser castigado por Deus? Ou será que ele dorme, sem culpa, sem nada? Jajá ao menos é corajo e não pensa essas coisas. Mas Anjinho, não. Anjinho nem deve ter tanto medo. O que ele tem mais nesse momento é culpa, remorso por ter matado o morceguinho, que também é uma criatura de Deus. Anjinho uma vez disse que o Diabo, até o Diabo, é uma criatura filho de Deus. Que tudo que existe no mundo é criação de Deus. Mas nunca soube dizer a ninguém quem criou Deus. Na aula de catecismo, o padre perguntava:
            - Quem é Deus?
            E Anjinho, mais os outros meninos, respondia:
            - Deus é o criador de todas as coisas.
            - De que é feito Deus?
            - Deus é feito do nada.
            Então pronto. Tudo estava explicado. Mas um dia Anjinho, relutante, perguntou ao padre se Deus era o pai do Diabo. O santo homem quase teve um troço. Arrancou o menino da cadeira puxando-lhe as orelhas, deu-lhe doze bolos e o colocou de castigo, de braços abertos por meia hora no pátio da escola, para que todos que passassem vissem o grande maldito que é esse menino. Desgraçado! Maldito! Não dá raiva mesmo? Ele ficou lá, meia hora e mais um pouquinho, feito um Cristo chorão. Bem feito!
            “Morre, desgraçado, morre! Pássaro negro, filho das trevas. E cravou-lhe mais outra brocha na asa esquerda.”
            - Engole o choro! Engole o choro! Disse a professora – ou terá sido o padre? -,   apontando-lhe o dedo na cara.
            Um pecador o Anjinho, um pecador. Não lembra o que ele fez com o morcego? Deixou-o crucificado no tronco da bananeira. Até parecia que tinha raiva do mundo. O que os outros meninos não entendiam era o que Anjinho dizia, rangendo os dentes, quando fazia uma maldade:
            - É assim que me vingo, filho do Cão!
            E foi pensando essas coisas que Anjinho, num momento de descuido, nem sentiu a noite soprar-lhe nas vistas e nas narinas um ventinho de sono.
            - Fiiiuuu! expirou profundo. E fechou os olhos.
A criança continuará sonhando mistérios...

sábado, 24 de março de 2012

Lindóia à janela




A tarde foi caindo devagar em Aldeia da Purificação. Os cigarrões no fundo do quintal silenciaram de vez. Até parecia que tinham combinado a hora de parar. O escuro veio escorrendo do céu e logo foi se espalhando no ar, penetrando nos recantos. Ouviu-se o motor da usina. A luz amarela e fraca dos postes de madeira se acendeu.

            Lindóia, triste, não sentiu vontade de sair. Também, ir para aonde? Da janela de sua casa, ela olhou a rua. Do outro lado, na praça, o bar de Manuel de Olindina aberto. Como fazia todos os dias, sempre no mesmo horário, ele punha a radiola para tocar um de seus velhos discos. E ela era obrigada a ouvir aquilo. O bar vazio. Mais logo é que chegavam os que bebiam pinga. A música avisava-os de que Manuel de Olindina já tomara seu café e que agora o bar estava aberto. Eram os mesmo de sempre. Um vinha gastar o pouco que ganhara com a venda do peixe; outro, o que conseguira com o serviço de pegar água na fonte. Seu João Celi não bebia, não fumava e nem se parecia com os poucos que se consumiam no bar. O que o atraía ali naquele bar era Rita, a mulher de Manuel de Olindina. Puxava conversa com ela, cheio de bons princípios, pois chegava com uma conversa de moral, de respeito aos santos, do que se devia e do que não se devia fazer. E ela acreditava, ou fingia acreditar que ele era um homem bom.
            - A senhora é uma mulher boa, dona Rita. – ele dizia.
            Ficava falando essas coisas agradáveis. E ela o colocava como exemplo de bom marido, sim, pois o santinho era casado.
− Santinho?
Isso mesmo. Fingia tão bem que até ele mesmo acreditava que era verdade as coisas que pregava. Mas, ao chegar em casa, entocando-se no banheiro, ou mesmo na rua, em um lugar escondido qualquer, aliviava-se pensando nela.
− Ora, mas isso não é errado.
É verdade, isso não é errado. Todo mundo, de uma forma ou de outra, acaba fazendo isso. Essa é a história que ninguém conta. O que se contava dela, da mulher de Olindina, era outra coisa. Que ela era boa, isso ninguém contestava. Seu João Celi que o dissesse.
            - Boa. Boa demais essa mulher – ele dizia com os olhos lambidos.
            O que se propagava era que seu João Celi tivera um caso com ela. Mas o caso só caiu na boca do povo depois que ele foi morar na cidade dos pés juntos. Foi Sebastião de Caboquinha quem espalhou o fato.
− Como ele soube isso? – pergunta-me você.
 Quem sabe! Sebastião de Caboquinha, desentendendo-se com Manuel de Olindina porque este não quis lhe vender cachaça fiado, fez cara de ameaça e, vingativo, espalhou:
            - Seu João Celi comeu Rita de Manuel de Olindina.
            “Pronto que a desgraça está feita.” – pensa você.
Que nada! Olindina era homem de sangue fraco. Nem espumar, espumou. Quis racionalizar um caso que era mais para porrada, para peixeirada. Nem foi capaz de atocaiar Sebastião de Caboquinha em qualquer esquina.
− Por quê?
Porque era um frouxo. Sabe que providência o corno tomou? Prometa que não vai rir.
 − Vou rir nada!
            − Vou levar o caso para a justiça! − o abestalhado ameaçou Sebastião.
            − Ha, ha, ha, ha, ha!
            Você disse que não ia rir. Mas não foi só você quem se escangalhou de rir assim. Sebastião riu assim. Todos rimos assim. Até mesmo Lindóia, que tinha o ar triste naquela noite, ali, sozinha, olhando o bar de Olindina, até ela começou a rir gostoso.
            “Rita dando para o defunto... Rita, mulher fogosa...  Ai, ai... E seu João Celi? Como é que vão prender ele, se ele está morto? Hum, esse Manuel de Olindina é mesmo um idiota...” – ela ficou pensando.
            - Está rindo de que, Lindóia? – perguntou Manuele, que tinha acabado de chegar de Maraú naquele instante, na lancha toque-toque de Tuninho.
            - Oi, Manu. Veio ver sua vó Lalá, foi?
            - Vim ver ela, sim; e você, tá boa? Ah, deve estar, tá rindo.
            - Tô boa, sim; não estou rindo de nada não; estava só me lembrando de um caso.
            - Ah, bom. Então já vou, ufa, essa ladeira do porto mata qualquer cristão. Até logo, Linda.
            - Até, Manu.   
            Manuele desceu a rua deserta. Lindóia voltou a seus pensamentos, e de novo começou a rir. E nem foi nada, só a lembrança de um caso que, por assim dizer, estava morto. Mas, bastou lembrar, reviver a história, para que seu João Celi, que estava morto, de um salto começasse a reescrever sua história de amor com Rita. A história, assim, não morre, continua pulsando, e continuará enquanto houver quem a conte e reconte. Mesmo com aparência de morta, ela sempre será viva na memória do povo.
            - Esse seu João Celi, viu... – Lindóia pensou alto, se rindo.

Moça à janela. Imagem de Claudio Gonçalves - www.cpousada.com.br

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A propósito de uma história



Uma história se passou na minha infância e até hoje a trago como verossímil na memória. É a história do pescador de almas. Poderia não dizer assim, já, de cara, de que se trata, deveria esconder as unhas, os dentes, a malícia do bicho, até que... vamos à história.
Eu era menino e brincava na grama, lembro-me bem a cor e o cheiro desse dia. Talvez tivesse cinco ou seis anos. Não. É certo, contava nove. A certeza vem de uma bermuda azul, presente de meu pai. Não lembra que fazia anos e que eram nove? Não lembra o dia verde e o cheiro de chuva? Que um pescador passou com remo e samburá nas costas? Outro pescador, e outro, e... passaram seis, lembra? Lembra que um deles era seu Vivaldo? Não lembra? Aquele alto de pele queimada de sol, chapéu de abas largas; o que passou primeiro, com remo e samburá nas costas. Lembra? Ah, bom. Pois não se esqueça: este homem é a réplica do Diabo. Ah, não sabia  que o Diabo tem réplicas? Pois fique! O Diabo tem réplicas e as têm muitas. Um mascarado.
Os pescadores passaram. Uma senhora branca, de cabelos brancos, nariz firme e testa pequena, apareceu na janela de minha casa. Chamou-me.
— Vem cá, meu filho!
Eu, como queria ficar brincando, fiz corpo mole.
— Ah, mãe...
E ela, firme como sempre fora, agora ordenava, porém tinha na voz certo melaço.
— Vamos, vem que não vais te arrepender.
— O que é? É doce, mãe?
Fui correndo. Chegando em casa, na sala, vi meu pai de pé, a mão direita nas costas, sorria.
— Vamos, vem cá, menino.
Aproximei-me e ele, rápido, estendeu-me a mão que estava escondida e apresentou-me um embrulho. Eu não soube que fazer. Tinha certo acanhamento em presença de meu pai. Estanquei abobalhado à sua frente.
— Como é? Não queres o presente?
Temeroso — temia por respeito — recebi-o de sua mão.
— Como se diz? — perguntou-me minha mãe.
— Obrigado.
— Obrigado, meu pai — completou ela.
— Obrigado, meu pai — repeti.
— Dá um abraço em papai — mandou minha mãe.
Abracei meu pai, abri o embrulho e vi, veja você também, não é bonita minha bermuda azul?
Anos depois soube por minha mãe que a bermuda tinha sido um presente pela passagem de meu aniversário.
— Fazia quantos anos, minha mãe?
Respondeu-me nove. Ah, mas isso já faz tanto tempo, apenas conto para dar-te prova de minha idade na ocasião do Diabo. Vamos a ele.
 Aproveitemos que ele pesca para construir-lhe uma casa. É preciso ter casa. Não se vexe, esta é simples, e, com sua ajuda... —, obedece à arquitetura local: quatro toras fincadas, uma em cada ponta do quadrado, varas dispostas na vertical e horizontal, atadas com cipó, buracos tapados com barro batido, varas estendidas sobre a construção, piaçaba estendida sobre as varas e pronto, eis aí a casa de seu Vivaldo. Limpemos pés e mãos, todo o corpo, aliás, e entremos de vez.
Oxente, entramos na casa errada! Mas a história é assim mesmo: constrói-se em cima do tempo e do espaço. Nem sempre certo é o tempo, nem sempre bem demarcado é o espaço. Por isso entramos na casa do tempo errada. Ou, quem sabe o erro é um acerto?
A casa fica na Rua do Campo, pertence à família dos Policarpo, o tempo é que é um tanto incerto, 1965, 1970... 1973! A data certa vem da derrubada do casarão; aquele em ruína, lá perto da Praça da Matriz. Lembra? Foi em 1973. Houve coincidência de nossa entrada na casa com o fato.
Pois nessa casa mora uma moça. Ei-la sentada a coser um vestidinho. Vai casar-se, o seu nome é Sônia, 20 anos, boa moça, prendada... vai casar-se com Vivaldo, o pescador. O acerto — eis o erro — do casório já foi comunicado a todos. E todos estamos felizes pela união de Sônia e Vivaldo.
Epa! Essa última frase quem disse foi o padre.
Casados, vão morar na Praça da Matriz. A casa parece a Sônia um mondrongo, mas, como o olho se acostuma rápido com o que vê, com o tempo vai gostando.
— É a casa do meu amado! É a casa nossa! A casa dos meus sonhos! Ah, como sou feliz!
É, Sônia amava mesmo o marido. Mas vamos aos fatos.
Passaram-se cinco anos e nada de Sônia engravidar. Engravidar é preciso, viver não é preciso — paráfrase vagabunda! — Mas o que é a história se não se pare? Se não se pare, morre-se em si, morre-se a história. Sônia é o útero conceptível desta história. Cinco anos, cinco anos e nada. O jeito foi recorrer a um pai de santo. Ora, mas não foi por causa da infertilidade! Então não sabes que ela perdia o marido? Para a Clotilde, uma sirigaita, intrusa na história, simples ponta, sem crédito; então a deixemos aqui, morta e enterrada.
Havia o padre como conselheiro matrimonial. Mas não era isso o que Sônia queria. Queria era prender o marido às amarras de seu coração, um feitiço forte, que mandasse a outra para longe, que a deixasse na pele e no osso, que... enfim, que a matasse.
Vê como a história não conhece tempo? E não já enterramos a outra?... Continuemos.
O pai de santo conversou com o Coisa e, ambas as partes estando acordadas, fez-se o pacto. Daí a nove meses nasce a menina. É forte, é bonita, é morena; é a cara do pai.
— É uma menina mulher! Bonita como o diabo! Vai se chamar Janaína — diz, cheio de orgulho, Vivaldo.
Nascida a menina, o pai de santo visita Sônia e lembra-lhe do contrato, da cláusula.
— Ora, mas que cláusula, painho?
— A menina, Sônia, a menina é o preço. Depois pode ter outros filhos, mas esta... esta não lhe pertence, sabe de que falo... é o preço.
— Sacrificar a menina? — pergunte-me, leitor.
— Sacrificar a menina?
Isso mesmo. A menina nasceu de uma conjunção entre Sônia e o Diabo. As vias de transe, ou, se quiseres ser moderno, vias da transa, aconteceram em ritual satânico, onde a mulher, deitada e completamente nua, recebeu o falo espiritual. Ouviram-se os gritos do gozo. Deram-na por louca. O pai de santo e curandeiro a tratou com banhos de folhas e rezas. Dias depois estava boa e prenhe. Podia ter muitos filhos. O casamento estava a salvo. A história pode continuar.
Aqui bem cabe um fim, mas a história é fértil, continuemos.
Que a história também dá lá seus pulinhos, todo o mundo sabe, por isso, pulemos onze anos.
Eta pulo mal dado desgraçado! Não, tudo bem, caímos em tempo e lugar certos. Uma menina que pulava a cancela foi que... Vamos à história.
Que venha Janaína.