Rio Barcelos

Rio Barcelos

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O ensaio da viúva


O marido morreu, graças a Deus. Fazia anos que ela estava só, tinha-o ao seu lado, é verdade, mas, acredite, jura por Deus, a separação de corpos vinha já há mais de dez anos. Muito tempo de seca, de calores insuportáveis, de ansiedade; vontade de sair correndo, de passear por algum lugar lindo que nunca conheceu; ir à praia... afogar-se... Por muito tempo suportou este estado e o marido, que, agora, louvado seja Deus, está junto do Pai, ou, então, jogado lá no último círculo. O cara era mau. Imagine você que, por diversas vezes, espalhou aos quatro ventos que havia... ah, feito coisas imorais com ela, coisas que se faz mas não se diz, um cretino!
Conheceu Januário no enterro. Não foi nada premeditado, ele chegou e disse que sentia muito. O Osvaldo era boa pessoa, e que bom amigo! disse com os olhos colados na boca de Dora. Todos da mesma laia, amigos de copo, ela pensou. Mas foi o hálito dele. Foi o hálito cheirando a cravo, bafejado na cara dela, o que a excitou. Nossa, mas deu um calor! Começou a passar mal. Deve ser por causa do Osvaldo, coitadinha, lamentou a irmã do peste morto. Mal sabia a cunhada que estava ali, em sua frente, o verdadeiro homem da vida de Dora.
Mas não pense que foi tudo assim tão rápido. Não foi não. Primeiro ele foi visitá-la, uma semana depois. Nesse meio tempo ela descobriu telefone; endereço; nome de mãe, ainda viva; o pai, morto faz tempo; se o signo dele, escorpião, combinava com o dela, libra; se era casado... repare como deu pulos de alegria, separado, se-pa-ra-do. Ai, graças a Deus, o vento sopra a meu favor, disse ela aspirando fundo. E, quando menos esperava, adivinhe quem bate à porta?
— Aqui mora Doralice dos S. de Jesus?
— Sim, sou eu.
O rapazinho que trazia as flores marcou um xis no livro e mandou assinar. No meio das flores um cartão.
“Dora, a vida é como estas flores: alegre e colorida, mas precisamos aproveitá-la enquanto houver viço, cor e perfume, pois um dia a vida, assim como as flores, murchará. Você tem viço, você tem cor, você tem perfume. Carpe diem! PS: meu telefone é 3324-..., me ligue. Do amigo de todas as horas, Januário.”
No mesmo dia falou com Januário pelo telefone. Mas, confessa, tremeu. Parecia uma mocinha na expectativa do primeiro beijo. Bem, é compreensível, dez anos não são dez dias, desaprende-se. Que nada! pensou, encorajando-se, deve ser que nem andar de bicicleta: a gente nunca esquece.
— Alô!
— Alô! respondeu uma voz de mulher.
— É da casa do Januário?
— Sim.
— Ele está?
— Quem quer falar?
— Uma amiga.
— Não, senhora, ele não está. Quer deixar recado?
— Não, muito obrigada, e desligou rápido. Diabo! Se não está em casa para que pergunta quem é?
Manhã e tarde pensando no Januário. Pensando em ligar de novo; em quem seria a mulher no telefone; em esquecê-lo; em... liga de uma vez.
— Alô! do outro lado voz de homem.
— Alô! Por favor, começou com uma voz educada e sexy que sabia fazer, o Januário se encontra?
— Ele.
— Oi, Januário, aqui é Dora, Doralice.
— Dora? Doralice? Ah! Oi, Dora. Poxa, mas que alegria falar com você. E aí, gostou das...?
— Adorei! São lindas!
— Não tão lindas quanto você, mas...
— Ah, deixa disso, está sendo delicado... e...
— ... ! ? : ... ... .
— ? ; ; ; ... : .
Essas coisas que todo casal de namorados conversa. Nesse mesmo dia, de noite, ele foi a sua casa. Ela, preocupada com a vizinhança. O que não dirá esse povo... O marido, morto fresquinho e a viúva já pegando fogo na cama com outro. Poxa, mas que droga! Não queria contar assim, dizendo logo que foram pra cama, mas você, leitor/leitora, querido/querida, há de compreender a aflição de uma mulher que... pelo amor de Deus, mais de dez anos na seca. Não resistiu ao cheiro da loção de barba, o cheiro de homem, o aroma de cravo na boca. Como dizem as mocinhas de hoje: gamou. Será que é assim que ainda falam? Bem, o fato é que não agüentou e deu logo. Mas não foi assim tão fácil, foi não. Mulher desacostumada em ver homem nu; pior, em ficar nua diante de homem, preocupada com o corpo que já não era o de nenhuma mocinha... afligiu-se.
— Ah, deixa disso! Vamos, por que a vergonha? Seu corpo é lindo. Estou doido para ver, ele disse com cara de safado. Ela sonhava com um homem que tivesse essa cara! Que aperta os olhos assim... que tem bigodinho... a cara tremendamente cínica e... Clarke Gable! Clarke Gable! Aquele ator que ela acha lindo de E o Vento Levou. Januário por um momento foi o Clarke Gable da vida dela e ela a Scarlett O’Hara da dele.
— Hum, doido mesmo, isso sim é o que você é, disse bem perto da boca dele, a voz sumida, fraquinha, rouquinha, os braços no pescoço dele; ele já com as duas mãos na bunda dela. Quanta carne! ele disse. Isto é o que se pode chamar de abundância. Veja como é safado!
— A luz, apagar, ela disse, compulsivamente nervosa.
— Olhe só para você, ele reparou, está roendo as unhas.
— Vou apagar a luz.
Apagou.
Acenda a luz, disse ela depois de tudo. Com a luz acesa foi descobrindo, aos poucos, seu corpo de sob o lençol. Jura, jura por Deus, essa foi sua maior ousadia: mostrar o corpo nu para um homem, quase um estranho, na cabeça um amante, esta foi a maior ousadia de sua vida. E já não estava mais temerosa, ansiosa ou nervosa. Não, estava séria, compenetrada. Alguma coisa mudou nela depois que mostrou o corpo nu para Januário. E isso ficou bem claro quando ela disse:
— Me chame de coisa ruim, me xingue, me esculhambe.
— Quê?! Ora, Dora, mas que doideira é essa?
— Quero que me chame de uma coisa.
— De que, minha florzinha?
— Não, florzinha não. Quero que me chame de puta.
— Ah, Dora, deixa disso, vai, ele deu pra trás.
— Faz coisa errada comigo, Januário, faz, pediu com lágrimas nos olhos.
— Não vou fazer isso, Dora, respeito você e...
— Então vai embora! Vai embora! Sai daqui! ela mandou, gritando.
Com cara de quem não entendeu nada, ele saiu. Durante muito tempo Dora ficou na cama se cobrindo e se descobrindo, lentamente.
O retrato de Osvaldo ainda está na parede. Dora perde horas olhando para ele. Dá voltas silenciosas pela sala, quer que ele veja como ela está, se bonita no vestido preto.
— Quer que me dispa? pergunta ao marido morto no retrato.

— Quer que me dispa?

— Quer que me dispa?




Ilustração de Scheckter Barreto e Ed Almeida.

6 comentários:

  1. Maravilha de conto! Este conto é especial, fluente, um toque de humor na medida certa. E o final de mestre (ou melhor, do mestre).

    ResponderExcluir
  2. Nossa, Flamarion!
    Quanta... quanto... ui... menino... rsrs... Nem sei o que comentar! Muito excelente, se meu português me permite! rsrs

    ResponderExcluir
  3. Amei rememorá-lo...

    ResponderExcluir
  4. Sua prosa é uma das melhores da Bahia, Flamarion. E esse conto, que eu já conhecia, é singular. Tem humor e delicadeza, num perceber com acuidade a alma feminina. Parabéns!

    ResponderExcluir
  5. Uau!!De tirar o fôlego!!Maravilhoso, envolvente, visual, e...quente!!Amei!grande abraço.

    ResponderExcluir
  6. Não conhecia o seu trabalho, Flamarion. Ótimo este O ensaio da viúva, assim como Maria, A bomba, Lembrança de um amigo distante, Velas ao mar, O corpo. Bem, foram os que eu li até agora...

    Gosto dos seus temas, da rica linguagem das gentes simples, do ar de causo mesmo, do toque mágico. Me cansa bastante a árida enxurrada de realismo urbano que assola a nossa literatura contemporânea. Manda bala - e bomba, peixeira, o que for!

    Um abraço

    P.S.: Li recentemente Os canibais, do português Álvaro do Carvalhal. E fico me perguntando por que um poderoso e original autor do século XIX como ele não é sequer citado na maioria (senão em todas) das antologias e obras de crítica literária publicadas no Brasil.

    ResponderExcluir